Angola OffRoad

Forum de Divulgação, Informação e Convivio
 
InícioPortalFAQRegistrar-seConectar-se

Compartilhe | 
 

 Palanca Negra Gigante

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo 
AutorMensagem
papabeer
Administrador
Administrador
avatar

Número de Mensagens : 5606
Idade : 53
Localisation : Luanda - Angola
Data de inscrição : 06/06/2007

MensagemAssunto: Palanca Negra Gigante   Sex Jan 13, 2012 11:35 pm

Tem sido feito um trabalho de louvar em prol da preservação da Palanca Negra Gigante que corria o risco de desaparecer, vou passar a divulgar aqui os relatórios do trabalho que se vai fazendo.

_________________
faroeste
Voltar ao Topo Ir em baixo
https://www.facebook.com/paulo.arroteia
papabeer
Administrador
Administrador
avatar

Número de Mensagens : 5606
Idade : 53
Localisation : Luanda - Angola
Data de inscrição : 06/06/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Sex Jan 13, 2012 11:37 pm

2011
03. Relatório Palanca Setembro - Dezembro


Caros amigos,

Os últimos quarto meses do ano tinham criado alguma expectativa, já que o programa de reprodução da palanca no PN Cangandala entrou numa nova e mais entusiasmante etapa. Afinal de contas, e em resultado da bem sucedida operação de capturas que decorreu em Julho e Agosto, tínhamos agora dois grupos reprodutores em dois santuários vedados. Apesar das nossas elevadas expectativas, receio que as coisas na Cangandala nunca decorram de forma suave, e mais uma vez fomos forçados a reagir a eventos inesperados e a mudar o nosso rumo. Na melhor das hipóteses estes últmos meses tiveram um sabor agri-doce.

O principal culpado pelas nossas mais recentes dores de cabeça foi o Ivan “o Terrível”, aquele macho com tanto de impressionante como agressivo que tínhamos recentemente trazido da Reserva do Luando. Ele tinha sido libertado no recinto de 2,800 ha com seis jovens fêmeas e um jovem macho de 2 anos de idade (Miguel), e dentro de uma semana já se tinham todos encontrado. A manada de híbridos estava também neste recinto mas as duas manadas nunca se misturaram. Os dois machos foram vistos juntos algumas vezes, mas na segunda semana a natureza irascível do Ivan tornu-se evidente quando ele perseguiu e matou o Miguel sem piedade. O jovem macho foi perfurado várias vezes e pelo menos duas vezs no peito... deve ter sido um encontro rápido e brutal. Este acontecimento foi obviamente uma grande decepção para todos, até porque tínhamos julgado que o jovem macho era ainda demasiado tenrinho para ser visto como uma ameaça. Machos territoriais são geralmente criaturas intolerantes, frequentemente lutando com competidores, e mortes derivadas destas escaramuças não são raras. Talvez o Miguel tivesse sido tolerado por um outro macho... mas não por Ivan o Terrível. De qualquer das formas, e por muito cruel que isto possa parecer, este jovem macho era o animal menos importante e ti nha sido trazido apenas como plano B, um macho de substituição no caso de alguma coisa acontecer aos machos mais velhos e dominantes. A perda do Miguel não é uma crise para o programa de reprodução.

Mas o Ivan ainda não estava satisfeito, e um par de semanas depois rebentou a vedação à força, abrindo um enorme buraco e escapando do santuário junto do seu limite sul. Levou com ele duas das fêmeas de 1 ano, deixando para trás a terceira fêmea de 1 ano e as três de 2 anos. Porque é que apenas duas das seis fêmeas o acompanharam permanece um mistério, apesar de que é tentador especular que possivelmente as outras não aprovaram os seus modos. A fuga destes animais foi naturalmente visto como mais um golpe nos nossos planos. Especialmente porque logo assumimos que o Ivan daria início a uma migração suicida para sul em busca do seu antigo território no Luando, ou iria pelo menos andar perdido à deriva de forma imprevisível e atravessando as fronteiras do parque de vez com as duas jovens fêmeas. Mas logo quando tínhamos dado por certos estes cenários desoladores, foi quando o Ivan resolveu surpreender-nos pela positiva! O facto é que, uma vez livre das grilhetas do semi-cativeiro, O Ivan decidiu acalmar, estabelecendo o seu novo território em zona contígua ao santuário. Ao longo dos últimos meses temos temos seguido o Ivan através de sinal rádio e ele parece realmente ter-se baseado numa área fixa, sempre a poucos quilómetros da linha de vedação. Infelizmente a sua natureza esquiva tem-no mantido fora de vista, e também decidimos que não seria boa ideia pressioná-lo muito.

Muito embora não tenhamos podido confirmar, tudo indica que o Ivan tem mantido as duas meninas com ele. Igualmente importante, dá-se o caso de que o local onde se estabeleceu o novo território coincide precisamente com a zona habitual de presença da Joana, a velha fêmea pura que tinha escapado por debaixo da vedação em 2009, e que desde essa altura permanece solitária. Não posso deixar de pensar que se trata de mais que simples coincidência que o Ivan se tenha estabelecido junto da Joana... por esta altura já devem ter-se encontrado certamente...e talvez tenha sido a sua presença o que levou Ivan a rebentar a vedação?! Agora, este seria mais um louco capítulo nesta longa estória. Se acabar por ser a Joana a manter o Ivan e as meninas, formando uma nova manada reprodutora, mesmo fora da relativa segurança dos santuários. Pode ainda revelar-se um epílogo melhor e mais natural que o projectado inicialmente!

Considerando o que aconteceu com o Ivan, decidimos abrir imediatamente o santuário menor de 400 ha, ficando assim com apenas um grande recinto vedado com 3,200 ha. Não faria sentido continuar a manter o primeiro núcleo reprodutor contido numa área sub-óptima, quando já não havia segundo macho territorial. Para mais, tínhamos agora um grupo de quatro jovens fêmeas puras a precisarem desesperadamente de uma companhia masculina, de preferência um macho gentil como o nosso velho Duarte.

Entretanto, o macho híbrido castrado “Scar” tinha-se juntado e sido aceite pela manada pura. Não propriamente como “one of the girls”, mas também não propriamente como um garanhão... bem, não sei bem o que deveríamos esperar de um híbrido castrado, mas este certamente que parece e comporta-se de forma peculiar! Tornou-se num indivíduo bastante nervoso e hesitante (estava tentado a dizer que aparenta por vezes ser um bocado histérico...), mas parece ser inofensivo.
Por vezes vemo-lo a correr numa curta perseguição atrás de uma fêmea prenha ou sub-dominante, como se procurasse estabelecer uma posição dentro da hierarquia feminina. Mas mais frequentemente ele segue o Duarte por todo o lado, e gosta de subir ao topo dos grandes morros de salalé (termiteiras) como se montasse guarda enquanto a manada pasta pacificamente. É como se o Scar quisesse ser o assistente particular do Duarte, mas quase sempre é completamente ignorado pelo velho macho, que certamente não vê justificação para gastar energias num confronto com um híbrido capado. Em raras ocasiões, observámos o Scar aproximando-se amaricadamente do macho um pouco mais que o devido, mas quando isso aconteceu este último, nas sua típica maneira descontraída, simplesmente baixou a cabeça mostrando a ponta dos seus longos cornos, e o Scar imediatamente saltou e fugiu para uma distância mais segura.

Como já era esperado, e uma vez removida a vedação separadora, não levou muito tempo até que a manada reprodutora aproveitasse devidamente o maior santuário, e o grupo dos híbridos foi rapidamente absorvido. Afinal de contas, esta área era já bem conhecida das velhas fêmeas, e os híbridos eram também a sua própria descendência. Também não foi surpresa verificar que as quatro jovens fêmeas do Luando não foram aceites na manada. As palancas vivem em sistemas matriarcais, nos quais as manadas são lideradas por fêmeas dominantes, geralmente as mais velhas, e fêmeas “estranhas” são raramente aceites no grupo. Ironicamente, as nossas velhas fêmeas sentem-se mais confortáveis na companhia de um punhado de aberrantes e feios híbridos, do que junto destas novas e bonitas palanquinhas do Luando! Em relação aos híbridos, não interessa o que é que as pessoas dizem, eles sempre serão lindos para as mamãs deles!
De qualquer das formas, o facto de não se terem juntado todos os animais numa única grande manada não é problemático, e poderá até ser irrelevante. Tudo o que precisamos é que o macho, de vez em quando, possa passar algum tempo “útil” com as meninas. E nem de propósito, o Duarte foi já visto fora da manada grande e juntando-se às outras quatro fêmeas.

Em relação à performance reprodutora da manada original, ainda permanence muito abaixo dos mínimos exigíveis, e não temos novas crias confirmadas para anunciar. Por outro lado, e agora que entrámos no terceiro ano, um nítido padrão parece emergir. Das sete fêmeas, apenas três estão a reproduzir. A estrela da companhia tem sido a mais velha (e também dominante), a Neusa, que seguindo o ciclo natural de reprodução da palanca negra gigante nos deu duas crias em dois meses de Maio sucessivos (2010 e 2011, embora infelizmente em ambos os casos as crias tenham sido do sexo masculino). E mais uma vez em Setembro/Outubro últimos ela estava novamente no cio, já que pudémos testemunhar o Duarte excitado cheirando a sua urina e até fazendo uma tímida tentativa para a montar. Esperemos que este esforço não seja demasiado para ela, até porque parecia agora um pouco mais frágil e foi vista a coxear.
Depois temos duas outras fêmeas, Luísa e Teresa, que também têm reproduzido se bem que seis meses desfasadas do ciclo normal. Entraram no cio tardiamente reflectindo-se em gravidez fora de época. Isto não é necessariamente grave, desde que se mantenham a reproduzir. De facto, ambas as fêmeas estavam “muito” prenhes em 2010, embora apenas a Luísa tenha produzido uma cria. Assumimos que a Teresa deve ter perdido a cria pouco depois desta nascer. Já em 2011, ambas se encontravam obviamente prenhes em Outubro e Novembro, e em Dezembro último a Luísa tinha abandonado a manada (presumivelmente estaria a parir), ao passo que a Teresa mostrava-se bastante nervosa e com um úbere notavelmente inchado, pelo que esperamos que esta também já tenha parido.

Tudo isto seria muito aceitável, não fora o facto das restantes quatro fêmeas não terem ainda mostrado qualquer sinal claro de gravidez, muito embora pareçam bem alimentadas, saudáveis e tranquilas. Assim, e pelo segundo ano consecutivo, tivemos uma só fêmea reprodutora e no tempo certo, tivemos depois duas fêmeas a reproduzir fora de ciclo, e quatro outras sem qualquer sinal de reprodução! Isto não pode ser coincidência, e parece-me claro agora que não deveremos culpar o macho nem quaisquer outros fenómenos exógenos. Em circunstâncias normais, a reprodução das fêmeas de palanca negra gigante deveria ser bastante bem sincronizada (com a maioria das fêmeas a parirem quase simultaneamente, por voltas de Maio/ Junho), e a taxa de fertilidade deveria rondar pelo menos 90%, pelo que algo está errado.
Acreditamos que a explicação para esta anormal taxa reprodutora, é quase de certeza o resultado de uma década de produção de híbridos e ausência frequente de reprodução. Nem uma só das fêmeas teve aquilo a que podemos chamar de um historial reprodutivo saudável, e as consequências tornam-se agora dolorosamente óbvias, com mais de metade das fêmeas a nem sequer entrarem em ciclo de cio.
Se as nossas suspeitas se confirmarem esta situação terá de ser atacada em 2012, possivelmente anestesiando e administrando um tratamento hormonal, e dessa forma tentar induzir o cio nessas problemáticas quatro fêmeas.

Fotos podem ser vistas através deste link:

https://picasaweb.google.com/113384424565470443034/PalancaReport3_SetDez2011?authuser=0&authkey=Gv1sRgCPmw99_vzNWHwAE&feat=directlink

Finalmente, devo referir que o ano de 2011 terminou da forma mais trágica, quando inesperadamente o nosso querido amigo Kalunga Lima, faleceu. Ele era um notável realizador de cinema e fotógrafo que até estava a finalizar o seu documentário sobre o projecto da palanca. Tínhamos feito várias expedições juntos no mato, na Cangandala e Luando, e sinto-me privelegiado por ter partilhado eses momentos com o Kalunga. Se eu perdi um grande e verdadeiro amigo, a palanca negra giante perdeu certamente um dos seus mais entusiásticos e relevantes apoiantes. E o país perdeu, simplesmente, o melhor profissional no seu ramo, alguém que não poderá ser substituído tão cedo.

Cumprimentos,

Pedro Vaz Pinto

_________________
faroeste
Voltar ao Topo Ir em baixo
https://www.facebook.com/paulo.arroteia
Sput
OffRoad 3 estrelas
OffRoad 3 estrelas
avatar

Número de Mensagens : 818
Idade : 37
Localisation : Talatona - Luanda
Data de inscrição : 30/06/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Sab Jan 14, 2012 5:58 pm

é de louvar o trabalho deste Homem cheers
Voltar ao Topo Ir em baixo
http://www.gesticom-lda.com
papabeer
Administrador
Administrador
avatar

Número de Mensagens : 5606
Idade : 53
Localisation : Luanda - Angola
Data de inscrição : 06/06/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Sex Jan 11, 2013 8:17 pm

2012
04. Palanca Report 4º Trimestre

Caros amigos,

O ultimo trimester de 2012 marcou a entrada em definitivo da época das chuvas, como previsto. Na Cangandala e Luando, as chuvas começaram cedo e com força esta época, de alguma forma compensando a seca severa que durou quase um ano.

Tivemos vários desenvolvimentos positivos na Cangandala. Em primeiro lugar, e de de certa forma inesperadamente, o velho Duarte não apenas sobreviveu mas teve uma recuperação sensacional. Apenas algumas semanas depois de o termos deixado em condição miserável, encontrámo-lo agora em grande forma e tomando conta das suas meninas. Tenho de confessar que eu estava pessimista acerca do seu futuro, e estava convencido que ele tinha poucas chances de sobreviver até final do ano. Felizmente enganei-me completamente! Ele já não coxeia de forma evidente, parece acompanhar sem problemas a manada, está alerta e em boas condições; o pelo recuperou o antigo brilho e, de forma notável, as carraças quase desapareceram. È de facto curioso como tão depressa as carraças alastram e infestam a pele de um animal cansado e doente, e quão depressa elas desaparecem logo que este recupera... é como se as carraças sentissem a debilidade de um animal, ou/e se de alguma forma o animal saudável tenha a capacidade de repelir a maior parte das carraças, mantendo-as sob controlo.

Mas se as carraças estavam controladas, as moscas tsé-tsé foram um pesadelo, provavelmente afectando todos os mamíferos da região, nís incluídos! Isto não foi necessariamente uma surpresa, já que todos os anos depois das primeiras grandes chuvadas, e durante um par de meses até que a mata fique demasiado molhada até para elas, as moscas explodem em número e caem com força principalmente sobre os antílopes sociais de grande porte. Eu tenho a nítida sensação (sinto-o nas veias) que isto tem vindo a piorar ano após ano, o que é provavelmente um bom sinal... mais palancas significam mais moscas tsé-tsé! Para obter algum alívio destas incansáveis moscas, a cada 15-20 minutos, a manada de palancas corria subitamente algumas centenas de metros até parar e recomeçar a pastar. Também pareceu que os machos eram os mais afectados pelas moscas (possivelmente atraídas pela sua coloração escura), e como resposta estes refugiavam-se frequentemente deitando-se no interior de arbustos espessos.

No final de Outubro, os animais tinham-se temporariamente separado em dois grupos: as fêmeas velhas com os híbridos, enquanto que as novas fêmeas e animais jovens se juntaram com os machos numa segunda manada. Isto funcionou muito bem a nossa favor, já que os híbridos loucos são sempre muito nervosos e não toleram a nossa aproximação. Desta forma, concentrámo-nos no segundo grupo e pudemos chegar próximo dos animais durante vários dias, o que não só permitiu a sua observação pormenorizada mas também resultou na obtenção das nossas melhores sequências fotográficas até à data! E ainda mais importante, pudemos concluir que a reprodução este ano foi ainda melhor que o esperado. Todas as três jovens fêmeas que vieram do Luando em 2011 com 2 anos de idade, produziram uma cria cada uma. Desta forma, totalizaram-se já 5 crias em 2012, sendo ainda possível que a nossa parideira campeã, a Teresa, tenha tido uma segunda cria antes do final do ano (não a conseguimos localizar desta vez). Mas pelo menos tivemos 5 crias, das quais 3 fêmeas.

Foi um prazer acompanhar esta manada de eleição, com várias jovens e lindas meninas, e muitas crias à volta. Para mais, a sucessão do Duarte parece estar garantida e de forma suave, já que quer o Mercúrio quer o Apolo estão a crescer fortes e depressa, e até aqui parecem bem integrados e tolerados pelo Duarte. Parecem todos saber bem qual o seu papel e posição dentro da hierarquia... Mas claro, “boys will be boys” e mais cedo ou mais tarde, os mais novos deverão ser expulsos.

Olhando para trás, os primeiros dois anos após o início do programa de reprodução foram uma desilusão, com a reprodução frustrantemente lenta. Mas agora finalmente as coisas parecem bem mais prometedoras, e para o ano que vem esperamos uma perfomance ainda melhor, já que temos agora quatro outras fêmeas que acabaram de fazer 2 anos de idade, e que poderão parir a sua primeira cria em 2013. Com duas notáveis excepções (Teresa e Luísa), as velhas fêmeas da Cangandala não estiveram à altura do desafio, e se não fosse pela operação de 2011 que permitiu trazer 6 novas fêmeas do Luando, a popiulação de palanca negra gigante na Cangandala não sobreviveria! Pelo menos assim temos uma chance.

Já em relação ao louco Ivan, depois de ter quase espancado o Duarte até à morte, tem mantido “low profile”, e tem-se comportado pacificamente. Claro que não confio nele minimamente, e possivelmente ele estará a preparar-nos uma nova surpresa... Ele encontra-se ainda fora da vedação e patrulhando os limites regularmente, mas como é habitual não conseguimos nunca aproximarmo-nos o suficuente para o conseguir ver. E ao longo dos últimos meses ele tem até evitado as salinas, excepto por uma vez em que apareceu de forma breve e quase fantasmagórica, como que dizendo “Tenham cuidado com o Ivan, pois ando por aí...”

As câmaras ocultas deram-nos muitos bambis, golungos e facocheros como é habitual e algumas palancas castanhas, mas a maior surpresa foi um macho de quissema ou burro-do-mato, muito próximo da vedação. Estes eram conhecidos das planícies alagadiças mais a sul, mas é a primeira vez que a espécie é registada no coração do parque. Também interessante foram algumas sequências nocturnas mostrando-nos um galago e um manguço-de-cauda-branca.

Se as coisas correram de forma suave na Cangandala, já foi muito diferente no Luando onde a caça furtiva está quase descontrolada, e onde nos deparámos com alguns exemplos chocantes para o ilustrar, e apesar dos esforços desesperados dos guardas – os pastores das palancas. Dois pastores numa patrulha foram quase atingidos a tiro por caçadores furtivos (felizmente ninguém ficou ferido) e numa segunda ocasião puderam confiscar uma caçadeira, quando o caçador conseguiu escapar mas deixou a arma para trás. Faerura de armadilhas de laços continuam a ser encontradas e desmanteladas regularmente, mas certamente o incidente mais chocante foi quando, no decorrer de uma patrulha de rotina, os pastores encontraram o corpo recentemente morto de uma palanca negra gigante macho. A carcassa estava a apodrecer, mas inda mostrava o possível orifício redondo da entrada de uma bala no pescoço.

Com o apoio da Força Aérea Nacional fizemos uma operação relâmpago no dia seguinte ao incidente ser registado, mas sem resultados concretos, e apenas duas semanas depois pudemos deslocar-nos ao local numa expedição terrestre, para recolher informação adicional. Tratava-se de um jovem macho adulto, aparentemente saudável e no auge da sua vida, e não apresentava quaisquer sinais de infecções ou fracturas nos ossos, o que praticamente eliminou a possibilidade da sua morte ter sido causada por armadilha ou doença. O cenário mais provável aponta, para o animal ter-se afastado após ter sido atingido por caçadores furtivos com um tiro de bala na zona do pescoço.
Acampámos duas noites próximo do local, e numa dessas noites vimos um farolim a operar à distância e ouvimos tiros, mesmo do outro lado de um pequeno rio que nos separava e a cerca de 500 metros de onde estava a carcassa! Se alguma vez houvera dúvidas acerca do que matou o macho...

Comparando com o que se passava há alguns anos atrás, hoje temos uma muito melhor compreensão do que se está a passar no Luando. Também temos uma rede de monitorização básica no terreno que tem produzido resultados promissores, e algumas pequenas medidas têm sido tomadas especificamente para combater directamente com estas actividades ilegais. Mas estamos ainda muito longe de conseguir lidar com esta crise de forma adequada e inverter a tendência. A situação é bastante alarmante, mas eu quero acreditar que 2013 será o ano da mudança, em que conseguiremos ficar por cima nesta batalha e passar a vantagem das probabilidades a favor da sobrevivência da palanca negra gigante!

As fotos do ultimo trimester podem ser vistas neste link:
https://picasaweb.google.com/113384424565470443034/PalancaReport4Trim2012?authuser=0&authkey=Gv1sRgCN7Uv9-hncmi6wE&feat=directlink

Cumprimentos,

Pedro Vaz Pinto

_________________
faroeste
Voltar ao Topo Ir em baixo
https://www.facebook.com/paulo.arroteia
papabeer
Administrador
Administrador
avatar

Número de Mensagens : 5606
Idade : 53
Localisation : Luanda - Angola
Data de inscrição : 06/06/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Sex Jan 11, 2013 8:19 pm

Não tenho divulgado aqui no forum regularmente este assunto, espero que em 2013 não tenha estas falhas e possa informar todos os membros do trabalho importante que se está a fazer

Os relatórios são trimestrais, lembrem-me se eu me esquecer de divulgar


_________________
faroeste
Voltar ao Topo Ir em baixo
https://www.facebook.com/paulo.arroteia
ossos
OffRoad 3 estrelas
OffRoad 3 estrelas
avatar

Número de Mensagens : 1429
Idade : 32
Localisation : Luanda
Data de inscrição : 09/07/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Sex Jan 11, 2013 9:27 pm

Paulo, poem no Facebook do forum..
Acredito que há imensa gente que continua a pensar que ja estão extintas.
Gostava de partilhar.
abraço
Voltar ao Topo Ir em baixo
papabeer
Administrador
Administrador
avatar

Número de Mensagens : 5606
Idade : 53
Localisation : Luanda - Angola
Data de inscrição : 06/06/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Sab Jan 12, 2013 1:34 am



_________________
faroeste
Voltar ao Topo Ir em baixo
https://www.facebook.com/paulo.arroteia
papabeer
Administrador
Administrador
avatar

Número de Mensagens : 5606
Idade : 53
Localisation : Luanda - Angola
Data de inscrição : 06/06/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Qua Jan 16, 2013 6:20 am

O «Hippotragus Niger», nome científico da palanca negra gigante, foi descoberto em 1909 e figura desde 1932 na lista das espécies «sob protecção absoluta», estabelecida pela «Convenção para a Protecção da Fauna e da Flora Africana».

_________________
faroeste
Voltar ao Topo Ir em baixo
https://www.facebook.com/paulo.arroteia
papabeer
Administrador
Administrador
avatar

Número de Mensagens : 5606
Idade : 53
Localisation : Luanda - Angola
Data de inscrição : 06/06/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Qua Jan 16, 2013 6:56 am

IVAN "O Terrivel"



O Kota "Duarte"



A Manada



_________________
faroeste
Voltar ao Topo Ir em baixo
https://www.facebook.com/paulo.arroteia
papabeer
Administrador
Administrador
avatar

Número de Mensagens : 5606
Idade : 53
Localisation : Luanda - Angola
Data de inscrição : 06/06/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Seg Jul 08, 2013 9:44 pm

[b style="font-size: 13px; text-align: justify;"]2013[/b]
02. Palanca Report 2º Trimestre


Caros amigos,



O Segundo trimestre normalmente marca a transição da época chuvosa para o cacimbo. Nunca foi uma época favorita para mim, já que Abril tende a ser demasiado molhado e com terreno inundado, ao passo que em Maio e Junho o capim caduco torna-se dominante e começam as queimadas, tornando o trabalho de campo desconfortável e não muito produtivo. Nunca é uma boa época do ano para observar os animais já que a nossa mobilidade é reduzida e eles têm demasiada cobertura. Se isto não bastasse, as chuvas abundantes da época chuvosa que finalizava atrasaram a sequência normal dos acontecimentos em pelo menos um mês.


Até ao longo do mês de Junho, tivemos grande dificuldade em atravessar a baixa que define o limite ocidental do Parque da Cangandala. E sem surpresa, tivemos muito poucas observações de palancas a registar. O mais que conseguimos fazer, foi aproximar-nos algumas vezes da manada mais jovem, agora orgulhosamente controlada pelo magnífico Mercúrio (o primogénito da “nova” Cangandala). Tentativas de aproximação à manada maior, que inclui as fêmeas velhas e híbridos, não teve grande sucesso devido à natureza nervosa dos híbridos, vegetação densa e tornado pior devido à ausência do velho Duarte. Apesar dos nossos esforços não conseguimos detectar o seu sinal de rádio em nenhum local. Considerando a luta na vedação que foi reportada em finais de Março, receamos que já não tornaremos a ver o velho macho... Uma pena, já que ele tinha feito uma recuperação milagrosa depois do combate do ano passado, mas de qualquer forma também já estava a ficar demasiado velho.


Por outro lado o Ivan, como as câmaras ocultas confirmaram, parece tão forte como nunca e sem arranhões. O que nos preocupa, é que o Mercúrio possa ser o próximo na linha de sucessão sob o radar do Ivan, e mais cedo ou mais tarde possa ser desafiado para uma batalha... e não nos podemos dar ao luxo de perder o jovem Mercúrio!


A maior surpresa no santuário foi encontrarmos um casal de nunces. Ao longo das últimas décadas os nunces foram quase extirpados da Cangandala (muito embora no Luando sejam ainda hoje comuns), e a última observação tinha sido em 2009 numa baixa alagadiça mais a sul. Certamente que não esperávamos que qualquer nunce tivesse ficado dentro do perímetro da vedação, onde o habitat nem é o mais atractivo para esta espécie. Os nunces na região geralmente preferem zonas abertas extensas associadas com linhas de drenagem. Contudo, um olhar cuidado ao registo fotográfico, deu-nos algumas pistas sobre como lá terão ido parar. Sendo uma fêmea adulta e um macho bastante jovem, tudo indica tratar-se de mãe e filho. Um cenário provável seria a fêmea ter penetrado na mata para parir há um ano atrás, precisamente quando a vedação estava a ser expandida e como resultado acabou aprosionada dentro do santuário com a sua cria. Mesmo que o habitat não seja o seu preferido, estarão a salvo dentro do santuário, e agora terão a responsabilidade de repovoar a área!


Na reserve do Luando, as chuvas também foram generosas, mas o facto mais preocupante foram os registos insistentes de caça furtiva, transmitidos pelos pastores. A caça furtiva parece de facto estar intimamente ligada com várias operações de exploração diamantífera estabelecidas ao longo do rio Kwanza, já que estão na origem de uma demanda crescente por carne de caça, e isto ainda não foi solucionado. E claro está, caçadores bem armados, não apenas constituem uma ameaça permanente para as palancas, mas também colocam as vidas dos pastores em perigo. Alguns passos estão a ser dados para lidar com esta crise, e tenho esperança que possa produzir resultados em breve.


Best wishes,


No próximo trimestre esperamos fazer um novo survey aéreo, e colocar até 20 coleiras em palancas, na Cangandala e Luando.


Como habitualmente as fotos podem ser consultadas num album picasa, através do link: https://picasaweb.google.com/113384424565470443034/PalancaReport2Trim2013?authuser=0&authkey=Gv1sRgCPigntWfh5r4UA&feat=directlink


Cumprimentos,


Pedro Vaz Pinto

_________________
faroeste
Voltar ao Topo Ir em baixo
https://www.facebook.com/paulo.arroteia
papabeer
Administrador
Administrador
avatar

Número de Mensagens : 5606
Idade : 53
Localisation : Luanda - Angola
Data de inscrição : 06/06/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Ter Jul 16, 2013 1:32 am

http://www.verangola.net/Artigos/Biologo-angolano-conquista-premio-pela-conservacao-da-Palanca-Negra=001963#.Ud-cTRBpOTU.facebook


O Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, Portugal, atribuiu o prémio internacional “Terras Sem Sombra” 2013 ao biólogo angolano Pedro Vaz Pinto, que liderou o projecto da redescoberta de Palancas Negras Gigantes.
Segundo noticia a agência Angop, o prémio pelo trabalho de conservação da Palanca Negra Gigante, antílope apenas existente em Malanje, que se julgava extinto, foi entregue recentemente, na presença, entre outros, dos embaixadores de Angola e de Espanha, José Marcos Barrica e Eduardo Junco respectivamente.
Pedro Vaz Pinto é investigador do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto/Laboratório Associado (Angola). Entre 2002 e 2004, liderou expedições ao Parque Nacional da Cangandala, na província de Malanje, onde foram obtidos os primeiros indícios da presença dos animais. No entanto, segundo noticia a agência, só em 2005 houve identificação fotográfica de oito animais.
A natureza deste feito já mereceu reconhecimento internacional, tendo Pedro Vaz Pinto sido galardoado com o “Prémio Whitley Award-2006”, patrocinado pelo Whitley Fund for Nature, devido à qualidade e impacto do programa, feito em parceria com o Ministério do Ambiente em Angola.
Em declarações à imprensa, Pedro Vaz Pinto referiu que “a conservação da Palanca Negra Gigante é de grande relevância por tratar-se de um animal em risco crítico de extinção, restando menos de 100 exemplares vivos”.
Quanto ao prémio agora recebido, o biólogo angolano afirmou à imprensa ser bastante prestigiante, ressalvando que o mais importante é que constitui uma oportunidade para divulgar o projecto e alertar para o risco de extinção que ameaça a Palanca.
Natural de Luanda, Pedro Vaz Pinto é formado em engenharia florestal, com especialização em gestão dos recursos naturais, pelo Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa. Em 2003 ingressou no Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola onde coordenou o projecto de conservação da Palanca Negra Gigante. Neste momento, o biólogo é o responsável científico da equipa de investigação em mamalogia do recém-criado “twinlab”, resultante da geminação com o Museu de Ornitologia do Instituto Superior de Ciências da Educação da Huíla.




Tambem os interessados podem efectuar o seguimento da publicação do grupo que acompanha o santuário no página webb:
http://angolafieldgroup.com/palanca-negra/

_________________
faroeste
Voltar ao Topo Ir em baixo
https://www.facebook.com/paulo.arroteia
papabeer
Administrador
Administrador
avatar

Número de Mensagens : 5606
Idade : 53
Localisation : Luanda - Angola
Data de inscrição : 06/06/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Qua Nov 13, 2013 10:06 pm

2013
03. Palanca Report Especial Julho
 
VERSÃO PORTUGUÊS
 
Caros amigos,
 
Muito embora o terceiro relatório annual só estivesse previsto para sair em Outubro, achei que o mês de Julho merecia uma edição especial da newsletter centrada na Operação de Capturas 2013, e espero que apreciem.
 
Esta operação de capturas não pretendia movimentar animais, já que se considerou que a população da Cangandala tem recuperado bem após um começo hesitante. Os principais objectivos definidos para a Cangandala eram: em primeiro lugar (e se possível...) encontrar o “Ivan o Terrível” para substituir a sua coleira e talvez cortar a ponta dos seus cornos para ver se o tornávamos menos letal; localizar o velho Duarte para confirmar (ou não) a sua morte; colocarmos algumas novas coleiras em palancas puras incluindo pelo menos no jovem macho Mercúrio; e se possível imobilizar algumas das 4-5 fêmeas não-reprodutoras, verificando a sua condição, e talvez dar-lhes um tratamento hormonal para ver se lhes conseguíamos induzir um cio tardio.
 
Para o Luando, os principais objectivos eram a colocação do maior número possível de novas coleiras; encontrar manadas e animais marcados em anos anteriores ao mesmo tempo que procurássemos localizar novos grupos; e o que era muito importante, colher novas informações sobre as tendências populacionais, actividades de caça furtiva e outras ameaças.
Para esta operação contámos com a mesma equipa de topo como em 2009 e 2011, e que demonstraram ser tão profissionais e eficientes como sempre, nomeadamente o veterinário Peter Morkel e o piloto Barney O’Hara e o seu helicóptero Hughes 500. Eles fazem os seus talentos extraordinariamente difíceis e especializados parecerem fáceis. É um previlégio trabalhar com eles, e como em anteriores exercícios, esta operação foi um sucesso absoluto!
 
Muita logística teve de ser preparada com semanas de antecedência. Foi colocado combustível na Cangandala e para o Luando por camião militar e com um Alloutte da Força Aérea respectivamente. A colaboração com a Administração Municipal da Cangandala e com o Governo Provincial de Malanje foi também muito importante, e como sempre o apoio das Forças Armadas foi decisivo.
 
Nos preparativos, começámos por seguir os animais no solo e verificando as câmaras ocultas, mas os resultados não foram encorajadores. Enfrentámos este ano condições vegetativas algo atípicas, já que uma época chuvosa demasiado prolongada tinha atrasado a caducidade do capim e consequentemente as queimadas sazonais. Isto provavelmente até foi bom para os animais, dando-lhes mais coberto, alimento e disponibilidade de água durante grande parte do cacimbo, mas tornou a nossa tarefa de encontrar e observar animais muito mais complicada obviamente. Para além disso, as salinas registaram pouco movimento de paalncas em Junho, sendo umas raras excepções algumas jovens fêmeas que vieram do Luando em 2011 e que se mostraram muito avançadas na sua segunda gravidez. Seguramente a ser creditado ao jovem Mercúrio! Já em relação ao Ivan, este simplesmente não apareceu em nenhuma salina. Isto não era prometedor, já que queríamos ter uma boa ideia das suas andanças antes de o tentar encontrar por via aérea, mas desde que a coleira estivesse activa deveríamos acabar por encontrá-lo mais cedo ou mais tarde...
 
Como provavelmente já adivinharam, o Ivan haveria por reveler-se tão imprevisível como sempre, e durante as duas semanas em que durou a operação, ele simplesmente desapareceu como um fantasma. A sua coleira já não estava activa (deverá ter deixado de funcionar pouco antes da actividade começar...), e as várias horas percorridas a voar sobre o seu território não produziram resultados. Ficámos desapontados, mas não foi totalmente surpreendente... Suponho que a sua lenda continua assim bem viva, mas esperemos é que o Mercúrio se mantenha afastado deste maníaco! Da mesma forma não conseguimos encontrar o Duarte em lado nenhum, já que a sua coleira também não estava activa, provavelmente resultado da luta feroz que travou com o Ivan e que lhe deve ter levado também a vida.
 
Para além disso, tudo correu com grande sucesso na Cangandala. Conseguimos capturar e marcar o jovem Mercúrio, e pudemos confirmar “em mãos” que ele é de facto um exemplar soberbo com a sua tenra idade – Acabou de fazer 3 anos, e os cornos ainda não curvaram muito e não parecem muito grandes, mas mesmo assim já ultrapassam as 40 polegadas de comprimento. As três jovens fêmeas que tinham sido fotografadas em avançado estado de gravidez no mês anterior, agora apresentavam três lindas crias, e por razões óbvias não as perturbámos mais. No grupo com as mais velhas, verificámos que as duas fêmeas reprodutoras estão novamente prenhes, e conseguimos capturar as restantes 4 fêmeas não reprodutoras (a quinta, chamada Katia já não era vista há cerca de um ano, e provavelmente já terá morrido). A condição de não-reprodutoras nestas quatro fêmeas foi confirmada no terreno pelo Dr. Morkel e dessa forma decidiu dar-lhes uma injecção hormonal. É provavelmente demasiado tarde para que elas venham a reproduzir-se, após terem desperdiçado uma parte significativa das suas respectivas vidas tentando cruzar com palancas-vermelhas e híbridos, mas não temos nada a perder. Finalmente e no último dia de voos, pudemos ainda marcar a jovem Vénus, a segunda palanca nascida no Santuário, em 2010. É uma linda menina e provavelmente já na sua primeira gravidez!
 
O grosso desta operação contudo decorreu na Reserva do Luando. Aqui não tivemos grande dificuldade em localizar a principal manada, conhecida desde 2011, já que permanecia na mesma área e notavelmente era ainda controlada pelo mesmo macho territorial, que tinha sido a primeira palanca encontrada no Luando em 2009 e no mesmo local! Em dias subsequentes reencontrámos uma segunda manada conhecida, e eventualmente acabámos por localizar uma terceira manada, de cuja existência suspeitávamos. Contudo, não conseguimos encontrar duas “velhas” manadas, muito embora um deles se suspeite tenha desaparecido dizimado por caçadores furtivos. Várias fêmeas foram capturadas e marcadas em cada manada, e vários machos territoriais foram também localizados, capturados e marcados. No total imobilizaram-se 10 fêmeas e 10 machos no Luando, de diferentes grupos e diferentes classes etárias. Alguns do machos revelaram-se bastante impressionantes, e nos sete machos adultos capturados, os cornos mediram entre 52 e 58 polegadas de comprimento.
 
No segundo dia de voos no Luando, aconteceu uma das cenas mais extraordinárias que alguma vez testemunharei. Tínhamos encontrado a principal manada numa grande anhara, e após uma curta perseguição, Pete acertou um dardo numa jovem fêmea; como esta era parte de um grupo numeroso fugindo para a mata, decidimos persegui-las a curta distância – para nos assegurarmos que não perderíamos o animal “dardado” quando o grupo se separasse sob as copas das árvores. Até aqui tudo normal, mas quando o Barney manobrou o helicóptero sobre a cauda do grupo, e precisamente quando a “nossa” fêmea começou ligeiramente a abrandar... um enorme leão de juba negra apareceu inesperadamente, saindo do capim e saltando para o dorso da palanca e rapidamente a derrubando! Não podíamos acreditar no que víamos! Estava ali um leão no Luando, e tinha atacado uma palanca mesmo por baixo do helicóptero!!! Nós estávamos em choque e totalmente despreparados para aquilo… Toda a gente gritava dentro do helicóptero; eu estava em transe tirando o máximo de fotos possíveis, ao mesmo tempo que tentava libertar-me do cinto de segurança para conseguir um melhor ângulo de observação e gritava ao mesmo tempo. O Barney baixou o helicóptero até muito próximo da cena da escaramuça, enquanto fazia soar a sirene do helicóptero continuamente, e eventualmente o leão deve ter decidido que não conseguiria vergar este gigantesco e barulhento pássaro metálico amarelo, e afastou-se... A cena toda não terá durado mais do que alguns segundos, mas foi uma experiência inolvidável. Em plena batalha, houve um momento específico que nunca esqueceremos, e só lamento não ter conseguido fotografá-lo, muito embora tenha ficado bem gravado na minha memória – quando baixámos bem próximo sobre eles, o leão torceu o seu abraço à volta do pescoço da palanca e olhou para cima directamente nos nossos olhos, enquanto a sua escura juba era soprada para trás pelo vento projectado pelas pás do helicóptero. Foi uma visão grotesca, arrepiante e única. Coisa de loucos...
 
Sob o efeito da droga M99 e derrubada por um gato monstruoso, a fêmea estava prostrada e não imóvel. Logo que o leão abandonou o local nós aterrámos o helicóptero ao lado da fêmea e apressámo-nos para a auxiliar. Confiámos que o leão teria já sido suficientemente perturbado e assustado, para não regressar e reclamar a presa que consideraria sua. Felizmente o matulão não regressou! Era a nossa chance para inspecionar a fêmea aventureira, a quem chamámos Carina. Ela era uma linda fêmea jovem, com três anos de idade e bem avançada na sua primeira gravidez! Surpreendentemente ela tinha sofrido apenas ferimentos modestos, apenas arranhões no dorso e pescoço, e uma ferida superficial na barriga. Não tinha marcas de dentadas, e a pele de palanca tinha-se revelado bastante resistente às garras do leão nesta primeira vaga de assalto. Mais alguns segundos e teria sido demasiado tarde para ela... A ferida na barriga sangrava ligeiramente mas o Pete estava preocupado com a possibilidade de uma infecção que poderia alastrar de forma rápida e fulminante, pois as garras dos leões frequentemente estão infestadas de bactérias. A ferida foi assim abundantemente lavada em água e limpa, desinfectada e tratada com antibióticos. A fêmea foi então marcada e libertada.
 
Mas ela continuava em grave perigo, pois o leão poderia voltar e segui-la para terminar o serviço. Para melhorar as suas chances de sobrevivência, depois de a termos reanimado, afugentámo-la por um par de quilómetros para longe do local. Depois regressámos e por algum tempo procurámos o leão mas nunca mais conseguimos encontrá-lo. O que não foi surpresa, pois o capim longo constitui um disfarçe perfeito para um leão. Foi então que começámos a interiorizar a gravidade da situação, de termos um activo predador de palancas à solta e à volta da nossa manada mais importante! Podemos ter empurrado a manada para as suas garras naquela manhã, mas não restam dúvidas que ele estava na área a perseguir as palancas em busca de uma refeição. E o mais certo é que já o fez antes e fará o mesmo novamente. Isto pode ser um problema sério. Os efectivos são tão baixos, que bastaria um leão matando uma palanca a cada várias semanas, para comprometer a recuperação da população.
Em retrospectiva, talvez devessemos ter deixado a fêmea anestesiada no terreno e centrado as nossas atenções no leão antes que ele tivesse escapado... mas durante aqueles momentos frenéticos tudo o que nos ocorreu foi resgatar a jovem fêmea!
Pelo menos nos dias seguintes pudemos confirmar que a Carina recuperou completamente, e em 48 horas tinha reencontrado a manada.
 
Mas não obstante o dramatismo deste episódio, o leão não é a nossa principal preocupação. O principal predador no Luando anda sobre duas pernas, e durante a operação fomos confrontados com evidências deste facto diariamente. E como em anos anteriores, alguns dos exemplos de furtivismo que registámos são chocantes. O facto da estação anterior ter sido muito húmida obrigou os caçadores furtivos a atrasarem um pouco as suas actividades sazonais de armadilhagem, já que usualmente colocam os laços ao redor de pequenas manchas de capim estrategicamente queimado, e charcas de água. Apesar disso, encontrámos já muitas áreas armadilhadas, incluindo uma dada charca, localizada bem no coração do território de uma manada, e com enormes armadilhas claramente destinadas a capturar as palancas.
Na Cangandala, a sul do santuário, encontrámos um bambi ainda vivo preso numa armadilha, e que pudemos libertar, ao passo que no Luando encontrámos dois outros bambis que tinham morrido, e apodrecido no local entregues aos abutres. Em comparação com 2011 encontrámos menos armadilhas e acampamentos de furtivos, mas isto pode ter sido porque a operação foi mais precoce e o cacimbo está também atrasado este ano. Mais preocupante é o facto de que em anos anteriores a maior parte dos laços serem feitos com corda de nylon, mas desta feita a maioria das 60 armadilhas desarmadas, foram fabricadas com cabos de aço, logo muito mais letais.
 
Como se encontrar todas essas armadilhas não fosse suficiente, fomos forçados a encarar vários exemplos gritantes dos seus efeitos nas palancas. Duas fêmeas imobilizadas apresentavam mutilações horríveis na forma de patas amputadas. Uma era uma jovem fêmea de quatro anos com a pata dianteira direita amputada abaixo do joelho. O acidente terá provavelmente ocorrido há mais de um ano e a lesão sarou de forma notável, mas claro ela coxeia seriamente, e nunca teve uma cria. A outra era uma fêmea mais velha que tinha a pata traseira esquerda amputada. Nenhuma destas fêmeas alguma vez virá a produzir uma cria, e para a população de palancas constituem um terrível desperdício. É como se tivessem morrido... Para além disso, dois dos machos capturados também coxeavam, e após serem inspeccionados revelaram lesões sérias nas patas traseiras, também claramente causadas por armadilhas. Talvez graças à sua constituição física mais forte, ou simplesmente porque tiveram mais sorte, conseguiram recuperar sem sofrer amputação da perna, mas ainda apresentam grandes cicatrizes e patas deformadas e menos funcionais. É incerto até que ponto estão afectados, mas as suas capacidades reprodutoras também poderão estar diminuídas.
 
No total, uma assustadora taxa de 20% de todas as palancas capturadas (machos e fêmeas) tinham ferimentos graves causados por armadilhas. Considerando que isto poderá ser apenas a ponta do iceberg, representando apenas aquelas que sobreviveram, podemos term uma boa noção da magnitude deste problema. Certamente que este nível de pressão de caça furtiva se traduz numa colheita totalmente insustentável. Tanto quanto pudemos verificar alguma caça furtiva tem origem nas comunidades locais. Mas a melhor organizada e mais preocupante forma de caça, que abate com maior frequência os grandes antílopes como as palancas, parece ser alimentada por uma demanda constante por carne para abastecer as organizações de exploração diamantífera estabelecidas ao longo do rio Kwanza.
 
Agora temos uma ideia muito aproximada da real situação no terreno, número de efectivos, sua localização, e os níveis de ameaça. Comparado com 2011, a população de palancas não parece ter diminuído ainda mais, mas por outro lado também não parece ter aumentado. Em vez disso, parece ter-se mantido e estabilizado em efectivos extremamente baixos e perigosos: não haverá mais de 100 palancas sobreviventes!
Ao longo dos próximos meses, esperamos vir a implementar uma série de actividades anti-furtivismo, em colaboração com os militares.
 
São convidados a verem as fotos no seguinte link:
https://picasaweb.google.com/113384424565470443034/PalancaReportSpecialJuly2013?authuser=0&authkey=Gv1sRgCK-IufzSs8jdDA&feat=directlink
 
Cumprimentos,
 

Pedro Vaz Pinto

_________________
faroeste
Voltar ao Topo Ir em baixo
https://www.facebook.com/paulo.arroteia
papabeer
Administrador
Administrador
avatar

Número de Mensagens : 5606
Idade : 53
Localisation : Luanda - Angola
Data de inscrição : 06/06/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Sex Jan 17, 2014 4:23 am

2013
04. Relatório da Palanca Agosto - Dezembro
Caros amigos,
Depois da operação de capturas as coisas estabilizaram no PN da Cangandala. Este ano as chuvas vieram cedo em Setembro e em resultado de trabalhos pesados a decorrerem no parque pelo Governo, colocando bungalôs e trazendo novos materiais de vedação, as estradas de acesso ficaram tão degradadas, que a partir de Outubro tornou-se impossível entrar no parque com viatura 4X4. Por esta razão apenas pudemos monitorar os animais até setembro e depois disso tivemos de nos basear exclusivamente nos registos das câmaras ocultas. Dentro do santuário e pelo final do cacimbo, um novo poço e tanque de água foram finalizados, para além de um miradouro em forma de  plataforma elevada sobre a baixa do Rio Cazela.
Em finais de Setembro os animais pareciam estar a evoluir bastante bem, com o jovem Mercúrio assumindo orgulhosamente o seu papel como o novo macho dominante da Cangandala. As palancas estão consistentemente separadas em duas manadas, o grupo mais novo acompanhado de perto pelo Mercúrio e as fêmeas velhas juntas com os híbridos e aparentemente sem presença permanente de nenhum macho. No último caso, ainda é incerto se um dos machos híbridos castrados exerce algum efeito dissuasor nos machos puros, mas aparentemente o ainda mais novo macho Apolo, de 2 anos de idade, está agora a gravitar ao redor das velhas palancas.
O mais importante foi que pudemos confirmer oito novas crias nascidas em 2013, filhas das seis fêmeas que trouxemos do Luando em 2011, e da Luisa e Teresa, as duas velhas fêmeas férteis e que não param de procriar. E ainda esperamos uma nona cria que pode ter sido produzida pela Vénus, a primeira fêmea nascida no santuário em 2010. No seu conjunto, e se excluirmos as quatro velhas fêmeas problemáticas que perderam o seu potencial reprodutor e nunca reproduziram, então a fertilidade para as demais revela-se notável e mantém-se nos 100% desde que começámos o programa de reprodução. Isto é apenas uma parte da equação, uma vez que se espera sempre uma elevada fertilidade nas fêmeas de palanca, ao passo que é a mortalidade das crias no seu primeiro ano de vida que frequentemente se torna um factor limitante para o crescimento de uma população.
Infelizmente não conseguimos entrar com o carro dentro do santuário depois de Setembro e as manadas foram poucas vezes à salinas para as fotos familiares, e assim não pudemos acompanhar convenientemente o desenvolvimento e sucesso das crias. Pelo final do ano pareceu claro que tínhamos perdido definitivamente os dois machos velhos e que tinham sido os principais protagonistas na Cangandala ao longo dos últimos anos. O Duarte já estava bastante velho de qualquer forma e tinha cumprido a sua missão produzindo as primeiras palancas puras no parque em mais de uma década. Parece lógico que a terrível luta com o Ivan em Março passado foi a sua última. Já em relação à nossa personagem mais popular, o louco Ivan o Terrível, infelizmente também parece estar fora de cena. Em Maio foi fotografado, saudável e majestoso, mas em Junho já tinha desaparecido ao passo que o colar já não emitia, e isto foi confirmado ao longo dos meses seguintes. Se considerarmos que não existe mais nenhum grande macho na zona nem predadores selvagens que constituam uma ameaça séria, já para não falar do impressionante vigor físico do Ivan, assim receio que temos de concluir que ele foi morto em resultado dum incidente de caça. Ou foi morto a tiro por caçadores ou acabou preso numa armadilha de laço, e em consequência a sua coleira deverá ter sido intencionalmente destruída.
A época chuvosa é quando a vedação fica mais vulnerável, por causa das frequentes tempestades com árvores e ramos caindo sobre a cerca. Isto tem sido uma preocupação, e para mais tornou-se evidente ao longo dos últimos meses que a vedação tem sido frequentemente desafiada e rompida por animais. E está claro, já não temos o Ivan para responsabilizar. Até agora parece que nenhuma palanca negra escapou, mas por outro lado pelo menos dois novos machos de palanca vermelha invadiram o santuário e estabeleceram-se lá dentro. Isto não deveria ser uma surpresa, já que a população de palancas vermelhas aparentemente tem vindo a aumentar significativamente na Cangandala ou pelo menos aproximando-se do santuário, como se constata pelo notável registo das câmaras ocultas. E está claro que a nossa vedação não é um obstáculo intransponível para um jovem macho determinado de palanca vermelha. Confirmámos nas fotografias um jovem macho maturo e também um solitário jovem com 1 ano de idade apenas, em duas salinas distintas. O último referido é mais um animal que, milagrosamente considerando a sua idade e pequeno tamanho, sobreviveu a uma armadilha de laço, mostrando uma pata dianteira com uma feia cicatriz. O infeliz incidente provavelmente explicará porque ele se dispersou com tão tenra idade. Quando apanhado na armadilha deverá ter sofrido um bocado, depois terá entrado em pânico e perdeu-se, acabando por invadir o santuário. Perdido e sozinho, ele foi agora fotografado tentando aproximar-se de uma das nossas velhas fêmeas puras, provavelmente numa tentativa desesperada de encontrar companhia.
Em 2012 e preocupados com os riscos continuados de hibridização, castrámos o jovem e único macho de palanca vermelha (Freddy) que estava dentro do santuário, já que ele tinha-se juntado à manada de fêmeas de palancas negras e suspeitávamos que elas não estivessem a ser apropriadamente atendidas pelo velho Duarte. Agora a situação mudou ligeiramente e não seria realista continuar a lidar de uma forma tão radical com todos os novos machos de palanca vermelha que surjam. Especialmente porque provavelmente continuarão a aparecer mais machos, mas mais importante, as manadas deverão estar agora convenientemente supervisionadas por jovens machos puros de palancas negras. Mas iremos manter-nos vigilantes... Por outro lado, e mesmo se o destino do Ivan é ainda debatível, os ferimentos na jovem palanca vermelha provam que a caça furtiva com armadilhas é ainda uma questão alarmante mesmo na Cangandala, pelo que muito falta fazer.
Na Reserva do Luando, as quinze palancas equipadas com coleiras GPS estão a ser permanentemente acompanhadas e permanecem aparentemente em segurança até ao momento. Parece claro que a ameaça mais séria que pende sobre as últimas manadas sobreviventes de palancas negras no Luando, são as armadilhas de laços, montadas ao redor da maioria das charcas e cacimbas, maioritariamente concentradas entre Junho e Agosto, e destinadas a capturar pela pata qualquer médio ou grande ungulado que se aproxime do local para beber água. Esta técnica infame, frequentemente  dirigida aos maiores antílopes (palancas negras e vermelhas) parece ser a causa para uma enorme e insustentável mortalidade anual nas palancas negras gigantes. Particularmente afectados são os mais vulneráveis, tais como fêmeas em fase reprodutora e animais jovens, e isto é suportado pelos nossos dados demográficos. As fêmeas prenhes ou recentemente paridas são provavelmente os animais mais dependentes de um abastecimento regular de água, ao passo que os animais jovens de 1 ano de idade são confiados, atrevidos e inexperientes, faltando-lhes ainda muitas vezes a força física para escapar de um laço. Os machos velhos são criaturas mais desconfiadas, menos dependentes da água e bastante mais fortes fisicamente. Isto poderá explicar porque a população de machos no Luando parece estar em melhor estado que as fêmeas e respectivas manadas, e porque tantas fêmeas apresentam ferimentos graves nas patas, e também porque parece haver uma anormalmente baixa taxa anual de recrutamento de animais jovens para a classe adulta, e isto constrastando com números saudáveis de crias.
Num esforço para contrabalançar a caça furtiva descontrolada na época do cacimbo, elaborámos e testámos uma nova estratégia, que esperamos possa vir a dar resultados concretos na próxima época. Primeiramente adquirimos imagens de satélite de alta resolução, e em resultado disto somos capazes de identificar com precisão a rede completa de cacimbas e pontos de água para toda a reserva. Em segundo lugar, todos os pontos de água foram provisoriamente classificados de acordo com a sua natureza, tamanho e proximidade a territórios e áreas vitais conhecidas das palancas. Uma interessante surpresa foi verificarmos que a rede de pontos de água revelou ser muito mais prolífera do que esperávamos, ou pelo menos do que nos parecia baseado na experiência anterior no terreno... temos muito mais água disponível do que suspeitávamos, e isto foi possível determinar por satélite! Depois efectuámos uma expedição com motos 4X4 em setembro para calibração dos resultados e maior detalhe na classificação das charcas mais importantes, especialmente as mais próximas dos nossos já definidos hotspots.
Na altura em fizemos a expedição já a maioria das cacimbas tinha secado, enquanto testemunhámos as primeiras chuvas que anunciavam a nova estação chuvosa. Por esta razão, as manadas já não visitavam as charcas para beber, e as armadilhas já tinham sido removidas. De qualquer das formas, ainda fomos bastante a tempo de avaliar as charcas pre-identificadas e de determinar a sua importância e nível de ameaça. Durante alguns dias e levando as motos a corta-mato visitámos 9 locais (dos quais apenas 1 era previamente conhecido por nós), menos de metade do que esperávamos, mas deparámo-nos com alguns contratempos que nos forçaram a não continuar. Mesmo assim, os resultados foram muito prometedores e acima das expectativas, demonstrando que estamos no caminho certo. Duas das cacimbas, como também sugerido pelas imagens de satélite, apresentaram uma baixa capacidade de retenção de água e foram reclassificadas como pouco relevantes. Das restantes sete locais, seis deles (86%) tinham rastos de palancas frescos ou não muito velhos. E quatro dos sete locais (57%) apresentavam ainda sinais graves e claros de caça furtiva. Em três charcas encontrámos grandes varas usadas nas armadilhas de laço durante o último cacimbo, e destinadas a palancas e outros grandes antílopes. Num destes locais deparámo-nos inclusivamente com um esqueleto de um nunce que teria morrido talvez há um mês, e entretanto tinha sido consumido por potamocheros e abutres.
No ultimo local visitado o choque foi ainda maior, quando ao entrarmos de rompante na mata circundante surpreendemos um caçador calmamente preparando e secando carne à volta de uma fogueira, num acampamento situado a menos de 200 metros da cacimba. Ele estava sozinho já que os seus dois colegas tinham saído para caçar com as suas caçadeiras. Jaziam no local alguns bambis mortos na véspera, mas ficámos ainda mais alarmados ao verificar que os dois caçadores ausentes tinham ido em perseguição de um macho solitário que tinha passado na charca durante a noite e seguiu sem se aperceber da presença do acampamento. Isto mesmo foi confirmado pelos rastos e pegadas frescas deixadas no local. The poacher was arrested and delivered to the authorities, e o seu espólio devidamente queimado na fogueira. Após interrogatório, ele confessou que vivia numa aldeia a mais de 100 kms da reserva, e eles eram uma equipa de três que vieram em duas motorizadas. O plano era caçarem antílopes a tiro durante alguns dias, ir secando a carne, e depois escoá-la para Malanje para venda no mercado.
Este incidente e diversos problemas mecânicos nas motos, obrigaram-nos a abortar a continuação da missão, já que seria demasiado arriscado tentarmos atingir alguns dos locais mais remotos. Mas o principal objectivo foi atingido. Agora esperamos estabelecer uma rede de monitorização das charcas para a próxima época seca, limpando e assegurando todos os principais pontos de água nas zonas chave. E isto poderá, quem sabe e pela primeira vez em muitos anos, começar a virar o jogo a nosso favor nesta luta contra a caça furtiva.
Infelizmente e para grande choque e desapontamento nosso, soubemos mais tarde, que o nosso caçador escapou à detenção menos de 24 horas depois de ter sido preso e entregue...
Mais um marco importante nesta luta contra a caça furtiva poderá ter sido o renovado compromisso por parte das FAA – Forças Armadas Angolanas (exército e força aérea), pois durante o mês de Outubro executaram uma séria operação com meios terrestres e aéreos no Luando, e com o objectivo de dissuadir a caça furtiva. Durante alguns dias fizeram deslocar equipas patrulhando a reserva, numa acção de sensibilização junto das comunidades residentes para a necessidade de se proteger a palanca negra gigante, e deixando entender que, a partir de agora, os militares estariam atentos e dispostos a proteger o símbolo nacional. Nós colaborámos com esta iniciativa, e alguns folhetos e posters foram produzidos e usados no Luando. No final desta operação não tinham sido capturados caçadores, mas pensamos que passou uma mensagem clara.
Apesar de tudo , algumas sdemanas depois recebemos mais informações preocupantes dando conta que muitos caçadores armados ainda estavam operando na reserva, e como demonstração convincente os pastores encontraram a carcassa fresca de uma palanca vermelha abatida. Tratava-se de um jovem macho de um ano que tinha sido morta a tiro por caçadores junto das áreas diamantíferas ao longo do Rio Kwanza. E ainda mais um registo preocupante foi sabermos através dos pastores que o grande leão estava de volta à acção, patrulhando e caçando dentro de áreas sensíveis para a palanca. Após o incidente com o helicóptero em Julho ele abandonou a cena durante alguns meses, mas finalmente acabou por voltar.


Para terminar numa nota positive, no final do ano recebemos excelentes notícias dando-nos conta que a Toyota – Angola, nos iria doar um novo LandCruiser HZJ... e vem mesmo em boa altura!


Fotos poderão ser consultadas através do seguinte link:


https://plus.google.com/photos/113384424565470443034/albums/5967678625420685505?authkey=CJ6vpfnVq8LXdg



Cumprimentos,
Pedro Vaz Pinto

_________________
faroeste
Voltar ao Topo Ir em baixo
https://www.facebook.com/paulo.arroteia
papabeer
Administrador
Administrador
avatar

Número de Mensagens : 5606
Idade : 53
Localisation : Luanda - Angola
Data de inscrição : 06/06/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Sab Mar 15, 2014 9:23 pm

2013
04. Relatório da Palanca Agosto - Dezembro
 
VERSÃO PORTUGUÊS
 
Caros amigos,
 
Depois da operação de capturas as coisas estabilizaram no PN da Cangandala. Este ano as chuvas vieram cedo em Setembro e em resultado de trabalhos pesados a decorrerem no parque pelo Governo, colocando bungalôs e trazendo novos materiais de vedação, as estradas de acesso ficaram tão degradadas, que a partir de Outubro tornou-se impossível entrar no parque com viatura 4X4. Por esta razão apenas pudemos monitorar os animais até setembro e depois disso tivemos de nos basear exclusivamente nos registos das câmaras ocultas. Dentro do santuário e pelo final do cacimbo, um novo poço e tanque de água foram finalizados, para além de um miradouro em forma de  plataforma elevada sobre a baixa do Rio Cazela.
 
Em finais de Setembro os animais pareciam estar a evoluir bastante bem, com o jovem Mercúrio assumindo orgulhosamente o seu papel como o novo macho dominante da Cangandala. As palancas estão consistentemente separadas em duas manadas, o grupo mais novo acompanhado de perto pelo Mercúrio e as fêmeas velhas juntas com os híbridos e aparentemente sem presença permanente de nenhum macho. No último caso, ainda é incerto se um dos machos híbridos castrados exerce algum efeito dissuasor nos machos puros, mas aparentemente o ainda mais novo macho Apolo, de 2 anos de idade, está agora a gravitar ao redor das velhas palancas.
 
O mais importante foi que pudemos confirmer oito novas crias nascidas em 2013, filhas das seis fêmeas que trouxemos do Luando em 2011, e da Luisa e Teresa, as duas velhas fêmeas férteis e que não param de procriar. E ainda esperamos uma nona cria que pode ter sido produzida pela Vénus, a primeira fêmea nascida no santuário em 2010. No seu conjunto, e se excluirmos as quatro velhas fêmeas problemáticas que perderam o seu potencial reprodutor e nunca reproduziram, então a fertilidade para as demais revela-se notável e mantém-se nos 100% desde que começámos o programa de reprodução. Isto é apenas uma parte da equação, uma vez que se espera sempre uma elevada fertilidade nas fêmeas de palanca, ao passo que é a mortalidade das crias no seu primeiro ano de vida que frequentemente se torna um factor limitante para o crescimento de uma população.
 
Infelizmente não conseguimos entrar com o carro dentro do santuário depois de Setembro e as manadas foram poucas vezes à salinas para as fotos familiares, e assim não pudemos acompanhar convenientemente o desenvolvimento e sucesso das crias. Pelo final do ano pareceu claro que tínhamos perdido definitivamente os dois machos velhos e que tinham sido os principais protagonistas na Cangandala ao longo dos últimos anos. O Duarte já estava bastante velho de qualquer forma e tinha cumprido a sua missão produzindo as primeiras palancas puras no parque em mais de uma década. Parece lógico que a terrível luta com o Ivan em Março passado foi a sua última. Já em relação à nossa personagem mais popular, o louco Ivan o Terrível, infelizmente também parece estar fora de cena. Em Maio foi fotografado, saudável e majestoso, mas em Junho já tinha desaparecido ao passo que o colar já não emitia, e isto foi confirmado ao longo dos meses seguintes. Se considerarmos que não existe mais nenhum grande macho na zona nem predadores selvagens que constituam uma ameaça séria, já para não falar do impressionante vigor físico do Ivan, assim receio que temos de concluir que ele foi morto em resultado dum incidente de caça. Ou foi morto a tiro por caçadores ou acabou preso numa armadilha de laço, e em consequência a sua coleira deverá ter sido intencionalmente destruída.
 
A época chuvosa é quando a vedação fica mais vulnerável, por causa das frequentes tempestades com árvores e ramos caindo sobre a cerca. Isto tem sido uma preocupação, e para mais tornou-se evidente ao longo dos últimos meses que a vedação tem sido frequentemente desafiada e rompida por animais. E está claro, já não temos o Ivan para responsabilizar. Até agora parece que nenhuma palanca negra escapou, mas por outro lado pelo menos dois novos machos de palanca vermelha invadiram o santuário e estabeleceram-se lá dentro. Isto não deveria ser uma surpresa, já que a população de palancas vermelhas aparentemente tem vindo a aumentar significativamente na Cangandala ou pelo menos aproximando-se do santuário, como se constata pelo notável registo das câmaras ocultas. E está claro que a nossa vedação não é um obstáculo intransponível para um jovem macho determinado de palanca vermelha. Confirmámos nas fotografias um jovem macho maturo e também um solitário jovem com 1 ano de idade apenas, em duas salinas distintas. O último referido é mais um animal que, milagrosamente considerando a sua idade e pequeno tamanho, sobreviveu a uma armadilha de laço, mostrando uma pata dianteira com uma feia cicatriz. O infeliz incidente provavelmente explicará porque ele se dispersou com tão tenra idade. Quando apanhado na armadilha deverá ter sofrido um bocado, depois terá entrado em pânico e perdeu-se, acabando por invadir o santuário. Perdido e sozinho, ele foi agora fotografado tentando aproximar-se de uma das nossas velhas fêmeas puras, provavelmente numa tentativa desesperada de encontrar companhia.
 
Em 2012 e preocupados com os riscos continuados de hibridização, castrámos o jovem e único macho de palanca vermelha (Freddy) que estava dentro do santuário, já que ele tinha-se juntado à manada de fêmeas de palancas negras e suspeitávamos que elas não estivessem a ser apropriadamente atendidas pelo velho Duarte. Agora a situação mudou ligeiramente e não seria realista continuar a lidar de uma forma tão radical com todos os novos machos de palanca vermelha que surjam. Especialmente porque provavelmente continuarão a aparecer mais machos, mas mais importante, as manadas deverão estar agora convenientemente supervisionadas por jovens machos puros de palancas negras. Mas iremos manter-nos vigilantes... Por outro lado, e mesmo se o destino do Ivan é ainda debatível, os ferimentos na jovem palanca vermelha provam que a caça furtiva com armadilhas é ainda uma questão alarmante mesmo na Cangandala, pelo que muito falta fazer.
 
Na Reserva do Luando, as quinze palancas equipadas com coleiras GPS estão a ser permanentemente acompanhadas e permanecem aparentemente em segurança até ao momento. Parece claro que a ameaça mais séria que pende sobre as últimas manadas sobreviventes de palancas negras no Luando, são as armadilhas de laços, montadas ao redor da maioria das charcas e cacimbas, maioritariamente concentradas entre Junho e Agosto, e destinadas a capturar pela pata qualquer médio ou grande ungulado que se aproxime do local para beber água. Esta técnica infame, frequentemente  dirigida aos maiores antílopes (palancas negras e vermelhas) parece ser a causa para uma enorme e insustentável mortalidade anual nas palancas negras gigantes. Particularmente afectados são os mais vulneráveis, tais como fêmeas em fase reprodutora e animais jovens, e isto é suportado pelos nossos dados demográficos. As fêmeas prenhes ou recentemente paridas são provavelmente os animais mais dependentes de um abastecimento regular de água, ao passo que os animais jovens de 1 ano de idade são confiados, atrevidos e inexperientes, faltando-lhes ainda muitas vezes a força física para escapar de um laço. Os machos velhos são criaturas mais desconfiadas, menos dependentes da água e bastante mais fortes fisicamente. Isto poderá explicar porque a população de machos no Luando parece estar em melhor estado que as fêmeas e respectivas manadas, e porque tantas fêmeas apresentam ferimentos graves nas patas, e também porque parece haver uma anormalmente baixa taxa anual de recrutamento de animais jovens para a classe adulta, e isto constrastando com números saudáveis de crias.
 
Num esforço para contrabalançar a caça furtiva descontrolada na época do cacimbo, elaborámos e testámos uma nova estratégia, que esperamos possa vir a dar resultados concretos na próxima época. Primeiramente adquirimos imagens de satélite de alta resolução, e em resultado disto somos capazes de identificar com precisão a rede completa de cacimbas e pontos de água para toda a reserva. Em segundo lugar, todos os pontos de água foram provisoriamente classificados de acordo com a sua natureza, tamanho e proximidade a territórios e áreas vitais conhecidas das palancas. Uma interessante surpresa foi verificarmos que a rede de pontos de água revelou ser muito mais prolífera do que esperávamos, ou pelo menos do que nos parecia baseado na experiência anterior no terreno... temos muito mais água disponível do que suspeitávamos, e isto foi possível determinar por satélite! Depois efectuámos uma expedição com motos 4X4 em setembro para calibração dos resultados e maior detalhe na classificação das charcas mais importantes, especialmente as mais próximas dos nossos já definidos hotspots.
 
Na altura em fizemos a expedição já a maioria das cacimbas tinha secado, enquanto testemunhámos as primeiras chuvas que anunciavam a nova estação chuvosa. Por esta razão, as manadas já não visitavam as charcas para beber, e as armadilhas já tinham sido removidas. De qualquer das formas, ainda fomos bastante a tempo de avaliar as charcas pre-identificadas e de determinar a sua importância e nível de ameaça. Durante alguns dias e levando as motos a corta-mato visitámos 9 locais (dos quais apenas 1 era previamente conhecido por nós), menos de metade do que esperávamos, mas deparámo-nos com alguns contratempos que nos forçaram a não continuar. Mesmo assim, os resultados foram muito prometedores e acima das expectativas, demonstrando que estamos no caminho certo. Duas das cacimbas, como também sugerido pelas imagens de satélite, apresentaram uma baixa capacidade de retenção de água e foram reclassificadas como pouco relevantes. Das restantes sete locais, seis deles (86%) tinham rastos de palancas frescos ou não muito velhos. E quatro dos sete locais (57%) apresentavam ainda sinais graves e claros de caça furtiva. Em três charcas encontrámos grandes varas usadas nas armadilhas de laço durante o último cacimbo, e destinadas a palancas e outros grandes antílopes. Num destes locais deparámo-nos inclusivamente com um esqueleto de um nunce que teria morrido talvez há um mês, e entretanto tinha sido consumido por potamocheros e abutres.
 
No ultimo local visitado o choque foi ainda maior, quando ao entrarmos de rompante na mata circundante surpreendemos um caçador calmamente preparando e secando carne à volta de uma fogueira, num acampamento situado a menos de 200 metros da cacimba. Ele estava sozinho já que os seus dois colegas tinham saído para caçar com as suas caçadeiras. Jaziam no local alguns bambis mortos na véspera, mas ficámos ainda mais alarmados ao verificar que os dois caçadores ausentes tinham ido em perseguição de um macho solitário que tinha passado na charca durante a noite e seguiu sem se aperceber da presença do acampamento. Isto mesmo foi confirmado pelos rastos e pegadas frescas deixadas no local. The poacher was arrested and delivered to the authorities, e o seu espólio devidamente queimado na fogueira. Após interrogatório, ele confessou que vivia numa aldeia a mais de 100 kms da reserva, e eles eram uma equipa de três que vieram em duas motorizadas. O plano era caçarem antílopes a tiro durante alguns dias, ir secando a carne, e depois escoá-la para Malanje para venda no mercado.
Este incidente e diversos problemas mecânicos nas motos, obrigaram-nos a abortar a continuação da missão, já que seria demasiado arriscado tentarmos atingir alguns dos locais mais remotos. Mas o principal objectivo foi atingido. Agora esperamos estabelecer uma rede de monitorização das charcas para a próxima época seca, limpando e assegurando todos os principais pontos de água nas zonas chave. E isto poderá, quem sabe e pela primeira vez em muitos anos, começar a virar o jogo a nosso favor nesta luta contra a caça furtiva.
Infelizmente e para grande choque e desapontamento nosso, soubemos mais tarde, que o nosso caçador escapou à detenção menos de 24 horas depois de ter sido preso e entregue...
 
Mais um marco importante nesta luta contra a caça furtiva poderá ter sido o renovado compromisso por parte das FAA – Forças Armadas Angolanas (exército e força aérea), pois durante o mês de Outubro executaram uma séria operação com meios terrestres e aéreos no Luando, e com o objectivo de dissuadir a caça furtiva. Durante alguns dias fizeram deslocar equipas patrulhando a reserva, numa acção de sensibilização junto das comunidades residentes para a necessidade de se proteger a palanca negra gigante, e deixando entender que, a partir de agora, os militares estariam atentos e dispostos a proteger o símbolo nacional. Nós colaborámos com esta iniciativa, e alguns folhetos e posters foram produzidos e usados no Luando. No final desta operação não tinham sido capturados caçadores, mas pensamos que passou uma mensagem clara.
Apesar de tudo , algumas sdemanas depois recebemos mais informações preocupantes dando conta que muitos caçadores armados ainda estavam operando na reserva, e como demonstração convincente os pastores encontraram a carcassa fresca de uma palanca vermelha abatida. Tratava-se de um jovem macho de um ano que tinha sido morta a tiro por caçadores junto das áreas diamantíferas ao longo do Rio Kwanza. E ainda mais um registo preocupante foi sabermos através dos pastores que o grande leão estava de volta à acção, patrulhando e caçando dentro de áreas sensíveis para a palanca. Após o incidente com o helicóptero em Julho ele abandonou a cena durante alguns meses, mas finalmente acabou por voltar.
 
Para terminar numa nota positive, no final do ano recebemos excelentes notícias dando-nos conta que a Toyota – Angola, nos iria doar um novo LandCruiser HZJ... e vem mesmo em boa altura!
 
Fotos poderão ser consultadas através do seguinte link:
https://plus.google.com/photos/113384424565470443034/albums/5967678625420685505?authkey=CJ6vpfnVq8LXdg
 
Cumprimentos,
 

Pedro

_________________
faroeste
Voltar ao Topo Ir em baixo
https://www.facebook.com/paulo.arroteia
papabeer
Administrador
Administrador
avatar

Número de Mensagens : 5606
Idade : 53
Localisation : Luanda - Angola
Data de inscrição : 06/06/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Qua Maio 07, 2014 7:23 pm

2014 - 01. Palanca Report 1st Trimester


Caros amigos,



No início do ano uma breve pausa nas chuvas perimitiram-nos uma incursão 4X4 ao PN da Cangandala, muito embora as condições das picadas se tenham deteriorado substancialmente. Foi uma boa oportunidade para testarmos o novo LandCruiser, gentilmente doado pela Toyota de Angola, e inevitavelmente tivemos muitos desafios para podermos negociar o nosso avanço através da lama. As coisas parecem evoluir de forma natural no santuário, com os animais divididos de forma consistente em dois grupos, um composto das fêmeas velhas e da maior parte dos híbridos, e uma segunda manada com a maior parte das palancas jovens. De forma algo surpreendente desta vez o segundo grupo não estava acompanhado pelo macho Mercúrio, mas antes pelo seu irmão mais novo Apolo, e que aos dois anos de idade é ainda muito inexperiente. Mais preocupante é o facto que o Mercúrio não apareceu nos registos das câmaras ocultas, nem nós conseguimos captar o seu sinal de rádio. Talvez esteja a passar algum tempo sozinho e apenas por azar não tenha sido detectado, mas é um pouco suspeito... Com o Duarte e o Ivan fora do cenário, e com os híbridos castrados, ele deveria estar a gozar uma confortável dominância sem competição dentro do santuário, e não me ocorre nenhuma razão que o levasse a deixar as meninas desacompanhadas... algo para explorarmos em próximas visitas.

Não pudemos confirmer o número de crias de palancas negras, já que o capim longo, terreno mole e vegetação espessa típicos do final da época chuvosa, tornou muito difícil a aproximação às manadas. Elas foram generosamente fotografadas nas câmaras ocultas, mas não simultaneamente e as crias de idade similar são dificilmente identificáveis individualmente. De todas as formas, pensamos que a maioria das crias terão sobrevivido, e os animais parecem felizes e saudáveis. Mais uma vez pudemos confirmar a presença de vários machos intrusos de palanca ruana dentro do santuário, mas nenhumas fêmeas. Por outro lado, as manadas de palancas ruanas fora do santuário têm vindo a produzir muitas crias, registadas consistentemente nas câmaras ocultas. Um evento curioso revelado pelas câmaras ocultas foi ver que uma das fêmeas velhas – a Paula, partiu o seu corno esquerdo. As fêmeas frequentemente interagem de forma agressiva ao estabelecerem as suas posições hierárquicas dentro das manadas, e isto por vezes pode resultar em lesões traumáticas. Contudo o corno partido não atingiu zona de tecido vivo e não deverá trazer quaisquer consequências para a Paula, para além de comprometer as suas ambições de dominância. E por outro lado vai torná-la agora muito mais fácil de ser identificada por nós.

Contudo as câmaras ocultas também nos trouxeram uma surpresa agri-doce. De forma surpreendente, o nosso personagem mais popular – o louco Ivan “O Terrível” reapareceu! Na sequência de uma ausência que durou mais de seis meses, tínhamos perdido esperança do localizar vivo, e assumimos que tinha provavelmente sido mais uma vítima dos caçadores furtivos. Bem, ele está vivo sim senhor, mas infelizmente não estávamos muito desfasados nos nossos receios. Ele foi mesmo vítima de um incidente de caça, tendo sido apanhado numa das muitas terríveis armadilhas de laços que são constantemente montadas no parque e zonas circundantes. Ele tornou-se uma sombra do Ivan que conhecíamos, e não fora pelos brincos brancos e coleira de telemetria, teria tido dificuldade em aceitar que ele era o mesmo indivíduo que agora apareceu nas fotos desde 3 de Janeiro. O nosso velho Ivan, forte e orgulhoso, poderoso e ameaçador, imbatível... desapareceu. Ele é agora uma pobre figura masculina, humilde e magricela, frágil e assustado, derrotado. O Ivan perdeu peso e até perdeu a sua brilhante pelagem negra, tendo-se tornado castanho, quase da cor das fêmeas. Ele já não é certamente o mesmo macho dominador, e na sua pata esquerda dianteira apresenta uma horrível cicatriz circular, evidência dos laços de cabo metálico que quase lhe levaram a vida. O incidente deve ter ocorrido há muitos meses e ele deve ter passado por um período infernal até finalmente ter tentado um hesitante regresso às suas funções territoriais. É provável que o pior já tenha passado e ele deverá sobreviver, mas é difícil prever se ele alguma vez recuperará na plenitude. Esta foi ainda mais uma chocante prova de que a maldição da caça furtiva está ainda longe de resolvida, até na Cangandala. É muito frustrante sentir que apesar de todo o esforço investido no projecto pelos vários parceiros e dos muito significativos sucessos obtidos ao longo dos últimos anos, mesmo assim não parece que estejamos a ganhar a guerra contra a caça furtiva pelo que a recuperação e sobrevivência desta magnífica e icónica espécie está presa por um fio.

Fotos podem ser vistas no Album Picasa através do seguinte Link:


https://plus.google.com/photos/113384424565470443034/albums/5998067063642775489?authkey=CPbNurKwo66wuQE


Cumprimentos,
Pedro Vaz Pinto

_________________
faroeste
Voltar ao Topo Ir em baixo
https://www.facebook.com/paulo.arroteia
papabeer
Administrador
Administrador
avatar

Número de Mensagens : 5606
Idade : 53
Localisation : Luanda - Angola
Data de inscrição : 06/06/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Seg Out 27, 2014 10:27 pm

2014
03. Relatório Palanca 3º Trimestre
 
VERSÃO PORTUGUÊS
 
Caros amigos,
 
O trimester começou com notícias preocupantes provenientes da Cangandala. Parcialmente em resposta aos nossos constantes alertas acerca da caça furtiva, a administração municipal em colaboração com a polícia local levou a cabo uma série de operações nocturnas colocando postos de controlo em várias das picadas que circundam o parque. E numa dessas ocasiões detiveram um caçador que transportava na sua motorizada uma palanca-vermelha! Tratava-se de uma palanca jovem fêmea de um ano, da qual ele tinha cortado a cabeça, mas mesmo assim é notável como ele ia a conduzir a motorizada ára Malanje carregando com um antílope tão grande. Foi prontamente detido pelas autoridades, e pelo menos por algum tempo esteve preso enquanto aguarda julgamento. Não ficou claro onde foi abatida a palanca, e poderá ter sido fora dos limites do parque, mas logicamente que este caso pode ser a ponta do iceberg.
 
Apesar das genorosas chuvas nos meses anteriores, a época seca este ano foi bastante intensa na Cangandala, e contra as nossas expectativas as charcas naturais e linhas de drenagem secaram muito rapidamente. Isto causou faltas de água ocasionais dentro do santuário, o que por sua vez pode ter contribuido para aumentar o stress dos animais. Provavelmente em resultado disto houve muita actividade de animais e sondagens ao longo da vedação, e infelizmente foi inclusivamente deitada abaixo algumas vezes quando alguns antílopes terão violado o perímetro. Não ficou claro para nós que animais terão atravessado a vedação. Num par de ocasiões terão sido envolvidas palancas-vermelhas, mas pelo menos noutra ocasião suspeita-se que algumas palancas-negras terão escapado do santuário.
 
Observações no terreno e os registos das câmaras ocultas provaram que as fêmeas velhas e pelo menos a maioria dos híbridos ainda estão contidos no santuário e desta forma a nossa preocupação aumentou na medida em que receamos que parte do grupo jovem possa ter escapado. Infelizmente nenhuma dessas palancas visitou em meses recentes qualquer das salinas, assim aumentando as nossas suspeitas. Seguindo os animais no terreno permitiu-nos localizar um grupo jovem dentro do santuário, onde se incluem as únicas duas coleiras de transmissão activas em fêmeas jovens. Este grupo é constituído por seis fêmeas (idades 2, 4 e 5), dois animais de 1 anos, cinco crias e é escoltado pelo Eolo, um jovem macho de 2 anos (o terceiro na linhagem dos nascidos na Cangandala, depois do Mercúrio e Apolo). Eolo é um jovem bem constituído, que ainda não ficou preto mas que já impõe uma certa presença. Pudemos de facto aproximarmo-nos deles várias vezes e acostumá-los à nossa presença, o que permitiu obter bastantes fotos a curta distância. A composição deste subgrupo demonstra que a manada jovem inicial se terá separado em duas, também considerando que o Mercúrio há muito rompeu e atravessou a vedação, e o facto de que o segundo grupo provavelmente estará acompanhado pelo Apolo e incluirá cinco outras fêmeas e quatro ou cinco animais de 1 ano mais algumas crias. Durante as minhas visitas não consegui encontrar o segundo grupo, e os testemunhos dos fiscais foram inconsistentes (clamam ter visto o grupo dentro e fora do santuário, e com números e datas irreconciliáveis). Este é um mistério que esperamos poder resolver ao longo do próximo trimestre. Claro que a possibilidade de termos metade do nosso melhor grupo reprodutor fora da zona vedada, pode ter grandes implicações no programa e forçar-nos a propor medidas de resposta excepcionais. Por enquanto e até que se prove o contrário, iremos assumir o pior cenário e planificar de acordo com isso.
 
Fora do santuário as câmaras ocultas registaram mais uma vez o nosso velho e bom amigo Ivan o Terrível, patrulhando o seu território. Ele ganhou claramente peso e poderá estar a recuperar algum do seu orgulho ferido. Mas esperemos que não demasiado. Já em relação ao Mercúrio não conseguimos encontrá-lo, e testemunhos não confirmados referiram  o seu patrulhamento num território localizado do outro lado do santuário, longe do Ivan. Sinto mesmo a falta deste rapaz, e seria um desperdício se o perdermos como macho reprodutor. De volta ao interior da zona vedada e após meses de frustrantes adiamentos, foi finalmente possível fazer um furo de água que se localizou numa paisagem pitoresca mesmo no coração do santuário, e que nos asseguraremos que estará operacional no início do próximo cacimbo.
 
Um desenvolvimento chocante que temos a reportar na Cangandala tem a ver, mais uma vez, com as actividades de caça furtiva. Restas já poucas dúvidas que temos pelo menos uma equipa de dois furtivos armados, que têm vindo a operar na zona pelo menos ao longo dos últimos três anos. Eles conhecem a área bastante bem, e caçam sobretudo de noite com recurso a farolim próximo do santuário, muito embora saibamos que pelo menos dum par de vezes em que eles se aventuraram dentro. Foram fotografados por uma das câmaras ocultas em 2012, e de vez em quando têm manipulado, destruído através do fogo ou mesmo roubado câmaras. E parece estarem a ficar progressivamente mais atrevidos nas suas acções. Nesta ocasião destruiram completamente uma câmara à machadada e levaram o cartão de memória. Mesmo assim, um deles foi ainda fotografado ao passar por uma outra câmara da qual desconhecem a existência. Infelizmente trataram-se de fotos nocturnas com pouca definição, apenas servindo para confirmar que se trata dos mesmos indivíduos, mas não suficiente para identificações precisas. Desta feita colocámos algumas armadilhas fotográficas em árvores altas, esperando que possamos fotografá-los em flagrante na próxima vez. Este e mais esforços estão a ser feitos no sentido de que possamos capturar estes elementos.
 
Mais a sul, a ponte através do rio Luando foi finalizada em Julho, pelo que nós pudemos atravessar o primeiro carro para a reserva em 27 anos! Fizemos um par de viagens neste período para a reserva e de cada vez passámos muitas noites acampados no mato profundo. Termos o veículo connosco significou um grande progresso em termos de logística e alcance. Mas claro que a ponte é também causa para preocupações já que facilita o acesso a caçadores e estimula a cobiça pelos recursos naturais locais. Na primeira visita soubemos que o nosso velho amigo leão tinha regressado à região e aterrorizava algumas comunidades, ao ponto que em certas aldeias o povo era aconselhado vivamente a não sair depois do escurecer. Mais uma preocupação para as palancas, muito embora me recorde de na altura ter pensado que se tivessemos sorte talvez a presença do leão pudesse deter ou desmoralizar alguns caçadores... quem sabe, talvez pudesse até apanhar um caçador.
 
No Luando também tentámos aproximarmo-nos das manadas de palancas, mas mesmo seguindo os sinais VHF tivemos sucesso limitado. A região é muito extensa e remota, e estes animais são bastante nervosos, sempre alerta por causa dos caçadores furtivos. Por causa disso o melhor que conseguimos foram breves encontros, e por razões óbvias decidimos não as pressionar muito. A maior parte do nosso tempo foi investido no patrulhamento de charcas e outros locais importantes previamente identificados a partir de imagens de satélite. Infelizmente mostrou-nos mais uma vez que a caça furtiva está descontrolada na reserva. Encontrámos muitos trilhos de caçadores, armadilhas activas e inactivas, cartuchos de uso recente, carcassas de animais presas em armadilhas, acampamentos de caçadores, e até numa ocasião deparámo-nos com um caçador armado que escapou antes que o conseguíssemos deter. E como se não bastasse, os registos das câmaras ocultas foram igualmente esclarecedores, já que para além de fotos de palancas-vermelhas e antílopes menores, obtivemos um grande número de fotos com caçadores, em cinco ocasiões independentes. Este facto foi bastante alarmante.
 
Agora guardei o melhor para o fim para acabar este relatório numa nota menos sombria (mesmo que alguns possam discordar): Antes de termos saído da reserva no final de Setembro recebemos as mais incríveis notícias. O leão conseguiu!!! O nosso matulão apanhou, matou e comeu um caçador furtivo ao jantar. E escapou. De acordo com a estória como foi contada numa aldeia local por um sobrevivente aterrorizado, ele e um compincha estavam a caçar à noite com farolins e o seu companheiro ia à frente com uma caçadeira, quando foram embscados pelo grande leão que não lhe deu qualquer hipótese de reagir. O segundo caçador fugiu o mais depressa que pôde e só parou na aldeia muitos quilómetros mais à frente. Recusou-se a voltar ao local da refeição no dia seguinte e desapareceu pouco depois. Aparentemente ninguém conseguiu determinar de onde tinham vindo os caçadores, mas assumiu-se que sejam garimpeiros operando ao longo do rio Kwanza. Agora esperamos que o sobrevivente conte a sua aventura, e a espalhe entre os companheiros.
 
Tenho de admitir que começo agora a ver o leão sob uma luz diferente. Uma pessoa romantica poderia ser tentada a encarar o leão como um agente de conservação activo lutando para manter a sua posição face aos competidores, ao passo que um cínico poderá sugerir que o leão vai simplesmente atrás da presa mais comum: os caçadores furtivos! Em qualquer dos casos, e independentemente de como se interprete, o meu respeito pelo matulão aumentou exponencialmente!!!
 
Fotos podem ser consultadas através do seguinte Link:
https://plus.google.com/photos/113384424565470443034/albums/6068878486065664289?authkey=CM6Uiuu3sLCkgwE

_________________
faroeste
Voltar ao Topo Ir em baixo
https://www.facebook.com/paulo.arroteia
papabeer
Administrador
Administrador
avatar

Número de Mensagens : 5606
Idade : 53
Localisation : Luanda - Angola
Data de inscrição : 06/06/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Ter Fev 03, 2015 2:54 am

2014

04. Relatório Palanca 4º Trimestre

 
VERSÃO PORTUGUÊS

 
Caros amigos,

 
Como se esperava o último trimester coincidiu com o início da época chuvosa. As chuvas começaram generosamente e no final de Outubro tornava-se já difícil para nós a movimentação dentro do parque. Estas condições também forçaram uma paragem nos trabalhos de desenvolvimento das infra-estruturas no PN Cangandala, mas pelo menos o principal furo de água já foi concluído, com acesso a boa água e com uma bomba solar instalada. Isto significa que ao longo da próxima época seca deveremos ter boa quantidade de água disponível para os animais dentro do santuário. Por outro lado uma vedação definitiva está a ser implantada ao redor dos limites do parque, e este trabalho avançou bastante bem até que foi obrigado a uma paragem em Novembro por causa das chuvas. De todas as formas a implantação da vedação deverá ser retomada e terminada em 2015.

 
Em Outubro e Novembro pudemos seguir os animais dentro do santuário por diversas vezes a curta distância. A principal questão que requeria clarificação era descobrirmos exactamente quantas fêmeas teriam eventualmente rompido através da vedação e escapado do santuário em Julho. Infelizmente ainda não conseguimos obter uma resposta definitiva uma vez que poucas coleiras de VHF permanecem activas, mas existem razões para estarmos agora mais optimistas. As fêmeas joven em especial, parecem manter ligações muito flexíveis, levando à formação temporária de manadas relaxadas que frequentemente se juntam e voltam a romper novamente com composição distinta. Isto significa que nem sempre encontramos as mesmas fêmeas juntas, mesmo quando sempre seguimos o mesmo indivíduo com coleira activa. A razão deste comportamento provavelmente estará relacionado com dinâmicas reprodutoras dentro do grupo relacionadas com as parições e o cio, mas também poderá haver um efeito aleatório quando a manada cresce demasiado e fica mais fácil o grupo partir-se quando se desloca na época chuvosa. O resultado é que tudo somado em diferentes ocasiões no santuário, observámos no total ao longo dos últimos meses a maioria das palancas que deveriam existir na Cangandala. Apenas duas jovens fêmeas não foram encontradas. É possível que um pequenos grupo tenha escapado do santuário mas não serão muitas, e é bem possível que nenhuma fêmea tenha escapado.

 
Um padrão claro e interessante é que os animais tendem a agrupar-se mais de acordo com a sua idade e sexo, do que em função das suas ligações de sangue. É bem sabido que as crias tendem a passar o dia em creches, mas mesmo à medida que crescem as jovens palancas parece preferirem a companhia de indivíduos da mesma idade e sexo do que seguir as respectivas mães. E verificámos jovens fêmeas da manada “velha” serem absorvidas na manada “nova” onde se puderam juntar com outras fêmeas da mesma idade. Por outro lado as fêmeas velhas revelam-se mais conservadoras e há já algum tempo que se dividiram apenas em dois grupos de comportamento distinto: as fêmeas velhas não reprodutoras acompanhadas das híbridas fêmeas, e as duas muito velhas fêmeas puras reprodutoras (Luísa e Teresa) com a sua prole anual. As fêmeas velhas nunca foram vistas próximo das manadas jovens, mas quando as suas crias atingem uma certa idade rompem das mães e juntam-se à manada com jovens. Infelizmente parece que estas duas fêmeas velhas também terão chegado ao final das suas carreiras reprodutoras. A Teresa desapareceu do radar, e receamos que possa ter morrido de velhice. A Luisa está agora sozinha e apenas acompanhada dos dois jovens machitos que ela e a Teresa criaram em 2013, mas depois de quatro anos de reprodução com sucesso ela não produziu nenhuma cria em 2014. Apesar de tudo estas duas velhas palancas da Cangandala foram verdadeiras heroínas e deram uma contribuição fantástica para o programa de reprodução, tendo produzido de forma notável 9 crias (6 machos e 3 fêmeas) entre 2010 e 2013! A a sua prole incluiu os 3 jovens machos (Mercúrio, Apolo e Eolo) que têm sido os machos dominantes no santuário desde a partido do seu pai.

 
Mas desta vez houve desenvolvimentos significativos em relação aos machos, e a maior parte positivos. Primeiro um resumo do contexto passado: Ao longo dos anos os machos têm sido frequentemente problemáticos mas sempre interessantes de seguir. Com o louco Ivan o Terrível estebelecido fora do santuário desde 2011 e com o bom velho Duarte morto pelo Ivan em 2013, o nosso primogénito Mercúrio assumiu a liderança dentro do santuário. O Mercúrio era um macho precoce e de de impressionante figura e tinha todas as fêmeas à sua disposição aos 3 anos de idade. Contudo no final de 2013 e para nosso grande desapontamento, o Mercúrio decidiu rebentar a vedação e dispersar para fora da vedação onde não existem fêmeas e em zona próxima do território do Ivan. Este facto abriu o caminho ao Apolo, o segundo macho a nascer na Cangandala. Mas o reino no santuário parece ter sido ainda mais breve que o do Mercúrio, e deixou de ser visto desde o primeiro trimestre de 2014. Pode ser que ainda acompanhe uma ou duas fêmeas, pode até ter saído também do santuário ou ter morrido, mas na realidade não fazemos ideia do que lhe aconteceu mas parece estar fora da equação. Por esta razão o Eolo, o terceiro na linhagem e apesar da sua tenra idade com pouco mais de 2 anos, tem vindo a assumir o papel de macho “residente” e acompanhando a maior manada reprodutora dentro do santuário.

 
Quando chegámos ao parque em Novembro recebemos notícias preocupantes. Os pastores reportaram que o perímetro tinha sido violada mais uma vez, e que desta vez teria sido o Ivan quem tinha rebentado a vedação e invadido o santuário. Os fiscais tinham inclusivamente tido um registo visual quando durante uma patrulha se depararam com a imponente e orgulhosa figura negra do Ivan, bem dentro do santuário. Isto não eram boas notícias. A ser verdade e considerando o cadastro miserável e sanguinário do Ivan o Terrível ele em breve iria perseguir os jovens machos e o Eolo em particular não teria grandes chances. Isto também era inesperado uma vez que desde 2011 o Ivan parecia ter estabelecido um território bem definido fora do santuário e nunca mostrou interesse em voltar. Mas o registo das câmaras ocultas contaram-nos uma estória bem diferente: não foi o Ivan, mas sim o Mercúrio quem voltou ao santuário! Após um ano de dispersão aventurosa decidiu regressar a casa! Curiosamente ele não reclamou o seu dote, ou pelo menos até agora não mostrou interesse em lutar contra o Eolo para juntar-se à manada como macho dominante. O Mercúrio foi o nosso jovem macho mais imponente, pelo que não surpreende que  aos quatro anos de idade, se tenha tornado num macho negro impressionante e com armação poderosa, e isto explica porque foi confundido com o Ivan. O seu comportamento sugere que ele está mais interessado em estabelecer um território dentro do santuário do que andar a acompanhar as fêmeas de forma permanente, deixando essa tarefa para o subdominante Eolo. A confirmar-se isto poderá dar-nos novas pistas acerca dos comportamentos associados à reprodução e territorialidade dos machos de palanca. O Ivan por outro lado desta feita não apareceu no registo das câmaras, o que levanta algumas preocupações em relação ao seu estado de saúde... contudo ele já provou ser bastante resistente no passado e recuperava ainda dos ferimentos da armadilha, e assim esperamos que ele  resurja em futuros relatórios.

 
Como sempre as câmaras ocultas providenciaram toneladas de fotos e algumas sequências bem interessantes. Sem dúvidas que a mais inesperada foi o enquadramento duma jibóia a caçar emboscada na Salina 7. Isto foi incrível, particularmente porque a jibóia sendo de sangue frio mesmo movimentando-se nunca iria fazer disparar o sensor de infravermelho das câmaras ocultas. Por esta razão a jibóia apenas foi fotografada como “colateral” quando outros animais visitaram a salina. É extraordinário ver como a jibóia escolheu bem o local de emboscada esticando-se paralelamente e ao longo de um troço de raiz exposta. Não se trata de uma jibóia particularmente grande, e provavelmente esperava a chegada de um bambi, uma cria de golungo ou de uma paca. O primeiro co-visitante registado foi uma fêmea híbrida (um roble). Atrevo-me a dizer que a combinação dum roble com uma jibóia num cenário natural, é um bom candidato para a foto selvagem mais única e bizarra alguma vez obtida!!! No dia seguinte a jibóia voltou à emboscada mas desta feita mudou para o outro lado da raiz, e o novo visitante foi um macho de golungo. Mais uma vez tratava-se de uma presa demasiado grande para a jibóia atacar, mas surpreendentemente o golungo permaneceu a menos de 30cms da jibóia sem que conseguisse ver a cobra. Em ambos os casos do roble e da jibóia os antílopes mostraram-se claramente nervosos e compreendendo que algo não estava bem, olhando em redor de forma inquisidora e levantando a pata da frente nervosamente várias vezes antes de abandonarem o local sem sequer se alimentarem. Mas suspeito que se tivessem sido uma presa menor a jibóia teria atacado e não teriam escapado com vida. Escusado será dizer que eu estava mesmo a antecipar uma sequencia predatória, com a jibóia a dominar um bambi ou golungo cria, mas infelizmente não aconteceu. Pena, talvez para a próxima!

 
Na Reserva do Luando conseguimos progredir no início de Outubro, e fazer a manutenção nalgumas câmaras colocadas em charcas. Contudo pouco depois, as chuvas instalaram-se, e tornou-se pouco aconselhável senão impossível conduzir fora de estrada. Presenciámos algumas fortes tempestades ao final das tardes, que proporcionaram interessantes oportunidades para fotografia de paisagem mas também deixou claro que não nos poderíamos aventurar no mato. Dessa forma investimos o nosso tempo remanescente no Luando na planificação e coordenação das actividades dos pastores.

 
Fotos podem ser consultadas através do seguinte Link:

https://picasaweb.google.com/113384424565470443034/PalancaReport4TRIM2014?authuser=0&authkey=Gv1sRgCLT_v9CNwvTldg&feat=directlink


_________________
faroeste
Voltar ao Topo Ir em baixo
https://www.facebook.com/paulo.arroteia
papabeer
Administrador
Administrador
avatar

Número de Mensagens : 5606
Idade : 53
Localisation : Luanda - Angola
Data de inscrição : 06/06/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Qui Out 29, 2015 4:44 am

Caros amigos,
 
Cacimbo. Apesar das primeiras hesitantes chuvadas depois de algumas tempestades no final de Setembro, a maior parte do trimestre atravessou o pico de uma bem marcada época seca. Mesmo assim, e como é habitual, este período é possivelmente o mais heterogéneo mas recompensador para realizarmos as visitas de campo nesta região: em Julho o capim já está bem morto e acabando de ser queimado, a visibilidade é máxima e podemos então chegar aos cantos mais remotos; em Agosto as palancas tendem a apresentarem-se mais mansas que no resto do ano, orgulhosamente apresentando as novas crias quendo saem para as clareiras para pastarem no capim fresco; pelo final de Agosto e início de Setembro a regeneração das Brachystegia e geófitas pinta as paisagens de miombo com cores vibrantes e inesperadas; e ao longo de Setembro a primeiras chuvas trazem de volta os odores da terra e miríades de flores cobrem as anharas.
 
Na Cangandala as coisas relativamente bem e com a reprodução em velocidade de cruzeiro. A época das parições já terminou, mas muito honestamente é complicado determinar o número de novas crias. As palancas estão agrupadas em pelo menos três diferentes manadas, frequentemente separando-se temporariamente em subgrupos diferentes. Para além disto as fêmeas marcadas com brincos ou coleiras também constituem uma minoria actualmente e apenas uma delas mantém uma coleira com frequência de rádio activa, e o resultado é que assim dificilmente conseguimos localizar as diferentes manadas ou atribuir crias às respectivas mães. Mas isto é logicamente bom sinal. Muito embora as duas fêmeas reprodutoras mais velhas (bem acima dos 14 anos) tenham aparentemente deixado de se reproduzir (ainda estão acompanhadas das duas crias macho que tiveram em 2013), todas as fêmeas jovens parecem muito fecundas.
 
O Mercúrio continua a encarnar o espírito de um verdadeiro macho dominante, impondo a sua presença e no entanto totalmente tolerante à nossa aproximação. Em finais de Setembro, quando entrámos na época do cio, pudemos observá-lo a demonstrar um comportamento bastante assertivo em relação às fêmeas, perseguindo-as insistentemente em curtos sprints com a cabeça ameaçadoramente baixa, certamente como parte do ritual amoroso pré-acasalamento… muito embora dependa da perspectiva de cada um, sem dúvida que alguém poderá interpretar este comportamento como agressivo assédio sexual. Ele perseguia-as uma de cada vez durante algum tempo, e sempre que mantinha este comportamento o resto das fêmeas na manada mantinham-se por perto, mas nervosas e inquietas. Após algum tempo ele acalmava e então toda a manada relaxava. Outro comportamento interessante foi testemunhar como parecem por vezes ténues os laços dentro da manada nesta altura do ano. Ao longo do dia e em dias consecutivos, observámos como a principal manada se fracturava em diferentes subgrupos sem lógica aparente – crias por vezes ficavam juntas ou sem as respectivas mães, ou algumas iriam com outros animais e outras ficavam, etc.
 
Numa diferente manada, o jovem Eolo com 3 anos de idade, está a desenvolver-se depressa e já está agora quase totalmente preto, e em breve poderá tentar desafiar a posição do Mercúrio. Também no santuário a manada dos híbridos tem sido fotografada frequentemente pelas câmaras ocultas. Surpreendentemente uma jovem cria foi registada numa ocasião acompanhando híbridos, mas a presença de uma jovem fêmea pura não muito distante sugere que deve ser esta a mãe… ou assim esperamos. Fora do santuário mais uma vez não obtivemos notícias do velho Ivan o Terrível… esperemos que os caçadores furtivos não tenham acabado com ele! Por outro lado encontrámos uma jovem fêmea, 2-anos de idade, sozinha do lado errado da vedação e tentando reentrar no santuário. Fizemos um plano para a recuperar, mas infelizmente no dia seguinte já não foi possível localizá-la novamente.
 
No rio Cuque, onde atravessa as zonas sul do parque da Cangandala, foi-nos presenteado o espectáculo mais inesperado: um hipopótamo manso que se instalou no rio Cuque junto de uma aldeia local e que de alguma forma consegue viver em pacífica harmonia com os seus vizinhos humanos. Aparentemente tudo começou há alguns anos atrás (2010?), quando alegadamente uma cria de hipo, possivelmente vindo do rio Kwanza algumas dezenas de quilómetros mais a sul, encontrou o seu caminho até ao local actual no Cuque a apenas 500mts da aldeia. Ninguém parece saber como e porquê isto aconteceu, mas podemos especular que a mãe poderá ter sido morta por furtivos e a cria vagueou sozinha até finalmente se estabelecer onde encontrou água. Na realidade eu já tinha passado por esta aldeia algumas vezes antes mas não sabia da presença do hipo, e tanto quanto me pude aperceber também os fiscais nada sabiam até muito recentemente. O que é de facto notável é que, não apenas o hipo não foi afugentado nem rapidamente convertido em carne seca, mas antes foi-lhe permitido permanecer na área e com o tempo foi desenvolvendo uma curiosa ligação com a população local. O rio tem apenas cerca de 20 metros no seu ponto mais largo. As mulheres recolhem água e lavam a roupa mesmo ao lado do hipo; os miúdos chamam o hipo aos berros e fazem todo o tipo de brincadeiras à sua volta; e o bêbado ocasional também se junta à festa debitando eloquentes discursos dirigidos ao hipo. Um pouco de tudo isto tive a oportunidade de presenciar, e mal pude acreditar na forma como o hipo se aproxima das pessoas. Isto parece ser um exercício bastante perigoso, muito embora devo dizer que pelo menos quando eu lá estive, o hipo pareceu mais curioso e amigável do que ameaçador… mas claro está que se um belo dia ele resolver atacar, a dois metros de distância ninguém terá qualquer chance para escapar! Para acrescentar um toque ainda mais surreal, no dia em que visitámos o local os miúdos levaram com ele um pequeno cão para usarem como isco – encorajando o cãozito a ladrar da margem, o hipo rapidamente reagiu e saiu da água aproximando-se do cachorro como se fossem bons velhos amigos… e assim chegou a 1 metro de distância do cão, ficando este compreensivelmente nervoso e eventualmente fugiu. Os miúdos já chegaram à conclusão que os cães deverão ser a sua comida favorita (?!) o que é logicamente um disparate. O hipo parece ser apenas um animal solitário e amigável desesperadamente em busca de companhia, e que na ausência de outros membros da sua espécie, então humanos, cães e cabritos terão de servir! Esperemos apenas que ele mantenha o seu bom humor não desafiado… Bem, de qualquer das formas permitiu algumas sequências fotográficas notáveis e inesperadas… a besta e os encantadores de hipos da Cangandala!
 
No Luando muitas coisas aconteceram, e infelizmente temos de reportar uma escalada da caça furtiva, e desta vez suportado com evidências vívidas e chocantes. Primeiramente houve registos do uso de uma nova técnica de armadilhagem na reserva: armadilhas de ferro! Tratam-se de duas meias-luas de ferro com as orlas dentadas e operadas por poderosas molas. São apropriadas para partir a pata de um grande antílope como uma palanca, e não era previamente conhecido o seu uso na reserva do Luando. E a primeira vez que o Sacaia (o nosso melhor homem) e dois outros pastores se depararam com uma destas armadilhas, foi de forma dramática e poderia ter tido piores consequências. Durante uma patrulha de rotina numa linha de água frequentemente usada pela nossa mais importante manada do Luando, o Sacaia e seus companheiros encontraram rastos suspeitos ao redor duma charca, indicando que uma fêmea de palanca tinha sido apanhada numa armadilha e tinha lutado lá pela vida uns dias antes. Enquanto inspecionavam os rastos e procuravam armadilhas de laço, o Sacaia inadvertidamente pisou um destes ferros. Numa fracção de segundo mal sentiu a armadilha tentou remover o pé mas foi apanhado em cheio a meio da sua bota nova! Se o tivesse atingido no tornozelo ter-lhe-ia partido a perna, mas felizmente desta forma a bota pôde absorver a maior parte do impacto e do estrago. Com a rápida assistência dos colegas, conseguiram desarmar a armadilha, e apesar das dores e ferimentos regressou a pé até casa. Se estivesse sozinho poderia não se ter safo. Mas pelo menos mais uma fêmea da principal manada não teve tanta sorte… Umas semanas mais tarde, e junto duma outra aldeia, um outro grupo de pastores recuperou uma armadilha similar, pelo que isto pode ser uma nova tendência e sinal preocupante.
 
E no entanto, mais drama estava a caminho. Dos animais marcados com coleiras em 2013 no Luando, apenas dois machos mantinham ainda os seus sinais de rádio activo e continuavam por isso a ser regularmente seguidos, os matulões Francisco e Elvis. O primeiro um macho muito velho (com cerca de 14 anos) que coxeava devido a uma perna defeituosa causada por ferimentos de um laço; mas o segundo era um magnífico macho ainda no auge das suas capacidades (com cerca de 9-10 anos de idade). Dá-se o caso que há já vários meses que tínhamos fortes razões para suspeitar que teriam morrido, mas não tinha ainda sido possível atingir os locais onde estariam localizados. Isto apenas seria possível na época do cacimbo. Desta feita chegámos aos locais, confirmámos as mortes e encontrámos os esqueletos de ambos os machos. O Francisco era muito velho, provavelmente com má condição física e de facto os seus dentes estavam muito desgastados. Não foi possível encontrar quaisquer pistas que esclarecessem as causas da morte do Francisco. Pode ter sido promovida por um incidente de caça furtiva, mas pode muito bem ter derivado de causas naturais… era um velho guerreiro de qualquer forma, e provavelmente não reprodutor há algum tempo e irrelevante para a população. Contudo uma estória totalmente distinta deve ser contada em relação ao nosso Rei Elvis. Não apenas era um indivíduo saudável e dominante e que não se esperaria que tivesse uma morte “natural”, mas no local encontrámos evidências suficientes que apontam para a caça furtiva como a causa. A mais relevante foi termos recuperado a sua escápula (omoplata) direita com um buraco circular quase de certeza provocado por uma bala; e mais ainda sinais de caça furtiva eram abundantes nas redondezas. A perda do Elvis é uma grande contrariedade já que era o macho dominante que atendia as nossas segunda e terceira manadas do Luando. Simbolicamente, ambos o Francisco e o Elvis foram animais magníficos e imponentes, apresentando enormes cornos arqueados que mediaram 58 e 59 polegadas respectivamente. Dois dignos representantes do mais belo antílope do mundo. Infelizmente é também um dos mamíferos mais criticamente ameaçados…
 
Durante as nossas visitas ao Luando encontrámos grande quantidade de armadilhas de laço com cabos de aço, acampamentos de caça uns velhos e outros em actividade, e animais mortos – na maioria bâmbis, quer sendo fumados nas fogueiras, ou simplesmente apodrecendo no mato. Mas para acabar o relatório numa nota menos sombria, recebemos mais notícias do nosso velho amigo leão, e foram coloridas como sempre. E sim, ele fê-lo novamente! Segundo consta, terá morto e comido um segundo caçador furtivo! Desta vez a estória foi que um par de furtivos estavam a operar linhas de armadilhas de laços junto rio Kwanza, quando numa bela noite um deles resolveu ir verificar as armadilhas enquanto o seu colega permaneceu no acampamento a preparar a carne. Não apenas o primeiro tipo não mais regressou, como ao longo da noite o leão rugiu insistentemente e precisamente a partir do local onde desapareceu o furtivo. No dia seguinte o segundo furtivo não se atreveu a ir procurar o que restava do colega, e em vez disso atravessou o Kwanza para contar a sua saga. Bem, ao menos o leão parece satisfazer-se com a caça aos furtivos e já é uma lenda viva. Para mais, especializando-se neste tipo de comida (furtivos) parece-me que não corre o risco de alguma vez vir a passar fome na reserva…
 
Cumprimentos
 
Pedro Vaz Pinto
 
Fotos podem ser vistas no seguinte Link:
https://picasaweb.google.com/113384424565470443034/PalancaReport3TRIM2015?authuser=0&authkey=Gv1sRgCLm-rpjS7PDDQg&feat=directlink

_________________
faroeste
Voltar ao Topo Ir em baixo
https://www.facebook.com/paulo.arroteia
papabeer
Administrador
Administrador
avatar

Número de Mensagens : 5606
Idade : 53
Localisation : Luanda - Angola
Data de inscrição : 06/06/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Ter Ago 02, 2016 3:05 am

2016
02. Relatório Palanca 2º Trimestre
 
VERSÃO PORTUGUÊS
 
Caros amigos,
 
O Segundo trimestre sempre marca a transição do final da época chuvosa para a época seca do cacimbo. Nunca é um período que eu antecipe com agrado, usualmente com demasiada água em Abril e demasiado capim em Maio, e apenas melhorando um pouco a meados de Junho. Esta é contudo a época quando as palancas parem, com o pico dos nascimentos tipicamente a ocorrer no mês de Maio. Desta forma, não é surpresa que tende a ser muito difícil aproximarmo-nos e observarmos os animais nestes meses. Para piorar as coisas, as chuvas anormalmente generosas da época chuvosa 2015/ 2016 na Cangandala e Luando, tornou as condições ainda piores com demasiada água mesmo em Maio e um oceano de capim hostil até ao final de Junho. E se isto não fosse suficiente, a velha antena de telemetria VHF desfez-se e acabou por não fazer sentido investir muito esforço em tentar monitorar as palancas no terreno.
 
Em vez disso focámo-nos em diversas outras actividades, de apoio a componentes de gestão na Cangandala, tais como reparações no bebedouro e sistema de furo, e iniciando a construção de um novo santuário vedado, que se destinará no futuro a conter alguns machos para visitas turísticas.
 
Os animais foram simplesmente monitorados indirectamente com recurso às câmaras ocultas como habitualmente. O Ivan o Terrível foi novamente registado, marcando o território fora do santuário, e numa ocasião os fiscais reportaram inclusivamente ter observado o Ivan na companhia duma única fêmea… ele não parece apreciar particularmente a companhia do belo sexo, já que diversas vezes pareceu ignorar ostensivamente oportunidades de liderar manadas, e até agora nunca tinha sido visto próximo de fêmeas… mas apenas podemos assumir que o facto de ser um solitário não faz dele menos macho e se tudo correr bem a agora fêmea solitária carregará a sua semente!
 
Dentro do santuário os registos mais notáveis reflectem um aumento nítido no número de jovens machos. O Apolo, apenas uns meses mais novo que o Mercúrio, está de volta e poderá em breve ser um verdadeiro competidor para o papel de macho dominante. Uma manada de solteiros foi também registada formada por machos de 2-anos de idade (os jovens machos entre os 2 e os 3 anos de idade tendem a abandonar o conforto das suas manadas e dispersam vindo a formar manadas de machos solteiros antes de estabelecerem territórios mais tarde na vida e então desafiarem machos maturos), e muitos machos de 1 ano e crias. A sucessão do Mercúrio está garantida, mas podemos também esperar que o aumento nos níveis de testosterona dentro do santuário vai resultar em mais conflitos, ameaças à vedação e possivelmente lesões e mortes de machos inexperientes. O plano eventualmente é removermos alguns destes machos e coloca-los no novo santuário, logo que ele seja terminado.
 
Na Reserva do Luando algumas coisas mostraram progresso, mas existem muitos sinais preocupantes sugerindo um aumento da caça furtiva, e faltam-nos dados concretos e actualizados acerca das condições e estado das diferentes manadas. Um desenvolvimento positivo foi o apoio recebido pelas forças armadas Angolanas, e que contribuiu muito para a moral dos pastores, tendo estes feito mais patrulhas e penetrado em zonas profundas e menos exploradas da reserva. Houve um par de incidentes reportados de encontros com caçadores furtivos, e num deles houve troca de tiros e terminou com a apreensão de uma caçadeira e de uma arma automática AK-47. Numa nota triste, os pastores também referiram terem encontrado uma fêmea ferida com uma pata em mau estado, possivelmente amputada, Eles não conseguiram ver brincos nas orelhas pelo que é possível que se trate de uma fêmea não marcada e que seja mais uma vítima recente de laços ou ratoeira. O facto de que os pastores referiram que ela estaria acompanhada duma pequena cria será igualmente compatível com um incidente recente.
 
O próximo trimestre será crucial já que estamos preparando mais uma operação de capturas, delineada para colocar coleiras em animais na Cangandala e no Luando, mas também para fazer um censo aéreo actualizado das manadas na Reserva do Luando e, com ajuda das forças armadas, de apoiarmos actividades anti-caça furtiva também no Luando.
 
Cumprimentos,
 
Pedro Vaz Pinto

_________________
faroeste
Voltar ao Topo Ir em baixo
https://www.facebook.com/paulo.arroteia
papabeer
Administrador
Administrador
avatar

Número de Mensagens : 5606
Idade : 53
Localisation : Luanda - Angola
Data de inscrição : 06/06/2007

MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   Ter Ago 02, 2016 3:06 am

Fotos podem ser vistas no seguinte link:
https://picasaweb.google.com/113384424565470443034/6309025463335166961?authuser=0&authkey=Gv1sRgCPDKnZeXw7jz-gE&feat=directlink

_________________
faroeste
Voltar ao Topo Ir em baixo
https://www.facebook.com/paulo.arroteia
Conteúdo patrocinado




MensagemAssunto: Re: Palanca Negra Gigante   

Voltar ao Topo Ir em baixo
 
Palanca Negra Gigante
Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo 
Página 1 de 1
 Tópicos similares
-
» Cegonha negra - dúvida
» Anubia Gigante.
» Mandarim bochecha negra peito negro
» GIGANTE ITALIANO
» periquito gigante

Permissão deste fórum:Você não pode responder aos tópicos neste fórum
Angola OffRoad :: CULTURA GERAL :: Aumente o seu Conhecimento-
Ir para: